domingo, 29 de novembro de 2009

Gritos

Gritos.
Vêm da rua.
Posso ouvir... e sentir.
Eles tintilham em meu ouvido e destroem meus pensamentos:
malditos Gritos.
Calem a boca futuros defuntos!
Fracotes, não levam Um único tiro sem gritar?
O barulho das pistolas agora me enervam.
Cadê os idiotas e seus sacos de plástico?
Onde estão os homens de preto em seus camburões.
Assim não dá. Não posso esrever com todo esse barulho lá fora.
Calem a boca! tem alguém aqui dentro
tentando fugir dessa realidade suja e nojenta!
Vou a té a janela e espio de relance o movimento da rua;
quieta, calma e noite sorrateira.
Onde estão as pistolas, gritos e defuntos?
Na minha cabeça.

As últimas Páginas

ácidas, corrosivas e inexpressivas; são minhas lembranças.
tão doce e gélida infância,
vivi sem o afago de mãos maternas
e sem o desabafo de mãos paternas
O livro de minha vida, faltam páginas,
Rasguei as primeiras, e rabisquei as últimas
parecia-me perfeita a semelhança.
Foi então que o jovem guerreiro me disse...
"de que serve um livro sem páginas e com riscadas palavras?"
pensei naquilo noites a fio.
não é que o guerreiro insípido e insolente tem razão?
resolvi expor minhas cicatrizes ainda sangrando para o mundo...
pouco tempo depois me arrependi...
o mundo não deu valor: obriguei-me a rasgar as últimas páginas.

sábado, 14 de novembro de 2009

Se quer ir, vá

Se quer ir,
vá, só vá.
Mas não me peça para sorrir;
Não me peça para não me importar
O ato de ir, não diminui sua perda
mas atenua minha dor
não diminui a ferida
nem ao menos torna menor o meu amor
O ato de ir, revela a falta de coragem,
a falta de vontade
e a dor por nunca mais sorrir
Se quer ir,
Por favor, vá.
mas não me peça para te aocmpanhar até o portão,
é demais para este pequeno coração.

Deixá-lo ir.

Estou cansado!
É o que eu ouço ele dizer
Eu também, querido, respondo em meu peito
Ele pede para deixá-lo
Eu nego
Ele fala que não me faz feliz
Eu debocho de seu "achismo"
Ele fala "Eu não te amo"
Então meu coração se desmancha
E em seguida,
sinto deixá-lo partir,
ir,
para nunca, ou
para sempre!

a princesa e o sapo

Era uma vez uma princesa num mundo que a deixava incompleta.
Um dia conheceu o sapo e se apixonou, pode-se até dizer que
se entregou por completo emocionalmente.Mas um dia o sapo se
cansou de tanta perfeição, e pediu para a princesa deixá-lo
apodrecer sozinho á beira do rio.Ela não queria, ela era
capaz de lutar pelo sapo. Mas resolveu fazer a vontade dele,
deixando assim, de ser egoísta. Nunca mais pensou no sapo,
mas toda vez que passa por uma lagoa seu coração pula dentro
do peito, e o sapo apodrece em seu túmulo.

A folhinha

Certa vez, uma menina simpática me disse: "somos como uma
folha de árvore na primavera: flexíveis. se o vento sopra
nós caímos, quando ele passe, levantamos tão rápido e rígidos
como antes."
Legal essa menina! Pena que a rajada fora longa demais,
pois ao passar, o caule já não tinha mais forças para se s
ustentar... Era uma vez uma folha...

domingo, 25 de outubro de 2009

Sem nome.


Não sei ao certo a data, não sei ao certo quando ou porque. Sei apenas que aconteceu, num lugar pouco distante daqui. Ele saiu do portão da casa dela, com agonia e repúdio por ele mesmo no peito. Deixou-a em meio a lágrimas, sentada no vão da porta. Não conseguiu olhar para trás. Talvez por medo de querer voltar, ou talvez por simplesmente querer sair dali, daquela realidade.

Andou 50 metros além do muro da casa dela. Parou, não podia mais conter o vômito de algo que estava nele, lágrimas se debulharam por entre seus olhos, encharcando sua bochecha magra e seu pescoço receoso. Chorou, parado ali. Era uma noite perigosa. Apesar de estrelada e com um luar perfeito, a noite estava misteriosa. Chorando, ficou estatelado em seu próprio mundo, perdendo o sentido de realidade ou sonho. Perdendo o sentido do que estava havendo. Quando deu conta de si, estava no meio da rua dela, ouviu barulho de tiros. De um lado a polícia, do outro uma quadrilha fortemente armada. Seguiu-se então uma sucessão de 19 tiros. O vigésimo seria aquele que acertaria ele. Ela correu para o portão com o rosto ainda molhado, pois se assustou com o barulho. Chegou a tempo de vê-lo levando o vigésimo tiro. Suas sobrancelhas curvaram-se, seu coração sentiu um aperto. Ele levara o tiro. Ela não podia acreditar.

A quadrilha fugiu enquanto a polícia o socorria. Ela saiu desesperada portão afora. Ele já não respondia. Havia levado um tiro pouco abaixo do ombro, bem ao lado esquerdo. Ela corria, mas seus músculos pareciam não responder. Os segundos levados para chegar até o corpo dele foram os mais longos de sua vida.

Ajoelhou-se ao lado do corpo ensangüentado.
- Não, por favor. Não faz isso comigo. – lágrimas não paravam de sair de seus olhos.

Logo chegou a ambulância e em seguida repórteres e todo tipo de gente que gosta de ver a desgraça e sair fofocando. Ela ficou em estado de choque por 2horas. Não falava, não respondia o que lhe perguntavam. Nem sequer olhava para um ponto fixo. Seu olhar estava realmente perdido. Não tinha mais sentido. Não tinha sentido continuar ali.

Ele sobreviveu. Foi para o hospital. Ficou em coma, durante quatro meses. E durante esse tempo ela o visitava todos os dias, incansavelmente. Conversava e fazia carinho naquele corpo que não respondia ou sequer se mexia. Acariciava aqueles cabelos, aquele pescoço, aquelas bochechas magras, e de vez em quando se arriscava a passar os dedos nos lábios agora secos e sem vida..

Após quatro meses, ela chegou ao hospital um pouco mais tarde do que de costume. Ao se aproximar do quarto, ainda no corredor, observou uma quantidade incomum de pessoas. Deviam ter umas 15. Seu coração amoleceu, não tinha mais chão nos pés. De repente saiu um moço alto e loiro.

- Ele acordou. – exclamou ele.

Ela não disse uma palavra sequer. Apenas sorriu, sorriu como a muito não sorria. Sorriu com os olhos, com os lábios, sorriu com o coração.

Ela o devolvera a vida, e agora já cumprira sua missão. Virou e foi embora pela porta de vidro principal. Ela o amava, incondicionalmente. Amava aquele homem. Aquele que a fazia rir muito e chorar o mesmo tanto. Que a fazia sofrer. Mas a fazia tão mulher, que nenhum sofrimento era o bastante para separa-los. Até aquela noite, na qual ele havia confessado sua traição.

Ela se foi, não sem antes deixar sua prova de amor.

11/05/09

(KS)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Uma das flores, Cap 10



Percebi meu erro. A folha era dele. O mesmo Mike Connor que o médico havia falado, o mesmo rapaz de bunda adorável, o mesmo herói convencido, o mesmo dono dos olhos mais encantadores e sorriso mais estonteante. Era ele. Ali, na minha frente.

Estupefata como eu estava, pensamentos tão absortos que me desprendi do mundo real e viajei no profundo de minha imaginação. O que ele pensaria de mim? Ah, perfeito. Não sabia o que falar. Fiquei muda.

- Já te conhecia – saiu um grunhido de palavras de repente de minha boca. – de nome, quero dizer. - Corrigi num instante.

- Será que estou tão famoso por essas bandas? Ou já era fã antes de chegar aqui? – falou meio arrogante.

- Do que está falando? Quem me disse seu nome foi o médico velho. Disse quando eu lhe pedi folhas e lápis. – disse eu com desprezo e uma pontinha de irritação pela falsa modéstia do meu parceiro de diálogo pela primeira vez dentro daquela clínica.

De fato eu conversara com médicos e enfermeiros, mas minhas frases se reduziam a sim e não, ou a no máximo três palavras. E mesmo assim com dificuldade. Agora, ali com aquele humano irritante, elas saíam com a mesma facilidade de uma expiração.

- Por que papel e lápis? Você desenha ou escreve? – perguntou ele ressabido.

- Penso alto o suficiente para as palavras se grudarem ao papel como num sopro de Superbonder. – percebi a idiotice sem graça que eu falei meio segundo depois. Engoli a seco e deixei passar a risada de deboche dele. Desvencilhei-me olhando para a grama cortada e para a carreira de formigas que passava por entre nós dois.

- Ah, claro. Escritora amadora. Tinha um nome para pessoas como você na minha turma de literatura: garota-idiota-que-acha-que-escreve-e-pensa-que-os-demais-gostam. – Sorriu afável como fel.

Fiquei sem ação. E para não sair vencida da disputa de palavras, terminei com um sorriso grande e falso no rosto pálido:

- Prazer foi todo seu. – respirei – Até mais.

Saí correndo quase voando. Cheguei ao meu quarto deitei na cama. Me veio uma onda de tristeza e amargura. Meu coração doeu como antes. E minhas lágrimas desabaram. Até hoje não entendi ao certo a mistura de sentimento. Mas creio que eu já havia entendido o quão importante aquele rapaz seria para mim... e mais que isso, entendi que odiava discutir, mesmo que por motivo torpe com ele.

Uma das flores. Cap 9

Perguntas sem respostas rodeiam minha cabeça e já posso vê-las escorrendo por minhas têmporas. Palavras escorrendo de todos os orifícios de minha face, como numa piscina de letras em que as palavras são os tubarões estrategicamente colocados para te afogar e te triturar. Já não havia ar para se respirar... Acordei. Estava um sol horroroso batendo bem no meu olho. Quem abriu a janela do quarto? Ah, enfermeira idiota. Odeio você.

Ontem, depois de receber meus materiais tão queridos, lápis e papel, acabei sem ter o que escrever. A necessidade é maior quando não se tem o que quer... Depois que se tem, é mais difícil precisar. Raça estranha essa humana.

Levantei cambaleante. Meu coração agoniado precisava despachar todo esse peso dos meus ombros... Como? Escrevendo.

Sentei ao sol, num banco branquinho no meio do jardim. O sol logo viraria sombra, pois havia ali uma árvore bonita e com imensas folhas bem clorofiladas. O céu tinha nuvens em pontos estratégicos que não encobriam o sol. Pois não ventava. Dei um leve sorriso, seria mais fácil controlar as folhas sem o vento.

Foi um momento único quando peguei o lápis e escrevi as primeiras palavras depois de meses. Senti a adrenalina invadir minh’alma, e de leve o gosto da maresia que eu sentira nos dias anteriores. Meu sorriso logo virou susto. Uma leve brisa bateu em meus cabelos como sopro, e empurrou consigo minhas folhas ainda em branco. Saí como uma idiota correndo para pegá-las. Foi bem idiota. Mas graças a Deus minha bunda não pareceu. Já havia aprendido a fazer os mesmos nós fortes todas as manhãs. Assim minha bela bunda estaria protegida de tarados exógenos loucos.

A brisa se tornou levemente mais forte. E as folhas voaram em direção oposta ao muro que eu tentara escalar dias atrás. Foram pra mesma direção que o rapaz metido a herói me apontara. Foi quando percebi novamente o cheiro de maresia. Realmente, daquele lado havia menos árvores. Peguei as folhas e fiquei andando como uma louca de um lado a outro do muro. Procurando por alguma fenda entre as árvores na qual eu pudesse espiar. Meio-dia. Nada. Resolvi ir tomar a sopa, e procurar mais tarde.

A sopa estava especialmente horrível aquele dia. Eu queria comida de verdade. Arroz, feijão carne moída bem temperada com uma salada de tomate e alface americana. Ai que saudades da comida da mamãe. Daria um braço por aquilo hoje. Mas não adiantaria. Nem sei se ela ainda se lembra de mim. Pouco importa, estou numa onda de testar a auto-suficiência. Quem sabe dará certo.

Depois do cochilo das 13h, voltei ao jardim, ainda vazio. E continuei minha caçada a maldita fenda.

Depois de duas indas e vindas percebi onde o cheiro se fazia mais forte devido a correntes de ar. Era ali. Eu ia subir.

E dessa vez um metido a herói não me atrapalharia. Idiota... Bunda bonita, mas mesmo assim cara idiota.

Subir em trepadeiras estava se tornando costumeiro. E perigoso. Mas pouco importa. Eu vi. Era o mar. Azul, imenso e com ondas intermináveis. Deu-me uma súbita vontade de pular aquela merda de muro e ir nadar. Mas não teria como. O lado de lá era extremamente alto. Merda tripla.

As folhas escritas e as outras brancas eu tinha deixado no quarto... mas de repente vi uma delas voando atrás de mim. Estranho. Não tem como voar da janela do meu quarto... desci com a sutileza de um elefante e comecei a correr atrás da minha folha branca, de uma das minhas chances de escrever... do meu destino, que se desenhava ali.

Alcancei a folha em branco com dificuldade. Ao pegá-la, o rapaz herói surgiu, juro não sei daonde, e a tirou de minhas mãos com um sorriso. O que ele pensa que é?!?! É MINHA folha.

- Obrigado por pega-la pra mim, achei que a tivesse perdido já. – disse ele com o sorriso de bambear as pernas e os olhos brilhando como céu de inverno.

Fiz cara de braba e arranquei a folha dele. ERA MINHA!

- Bem, se faz tanta questão de ficar com ela, é sua. Tenho outras mesmo. – continuou ele respondendo meu gesto mal-educado. Estendeu a mão e disse com muito pouca sensatez, julguei – Prazer, Mike Connor!

domingo, 27 de setembro de 2009

Era ela.

Entrou em casa,
tirou sua roupa, sua asa
tirou sua angelical feição
então, estremeceu seu coração.
Andando, voando;
No quarto chegou
Na cama se deitou
Nos sonhos entrou

Nos sonhos dela.
Junto dela
ali, a vida se tornava bela,
vida aquela
que ninguém jamais quisera.
Mas dele era.

Nos sonhos dela,
era ele o deus e o amor
era dele todo, da face o rubor
Seria ele, tudo que queria ela?
Ou seria ela, tudo que ele certa vez pedira e quisera?
Já não sabia.
Era pura sinestesia.
Aquela mulher,
aquele cheiro;
Era ela.
Sem dúvida sua dona.
Sem dúvida mandona,
sem dúvida apaixonado.
Entrou no sonho dela;
E jamais saiu decepcionado.

(KS) 26/09/09

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 8

Velha como estou, quando me lembro do meu passado, dos dias depressivos, da internação na clínica psiquiátrica aos meus 17 anos, do rapaz de olhos azuis, sinto um aperto no peito e um nó na garganta. É como se me enforcassem com uma rede de lembranças e me afogassem na minha própria saudade.

Acordei cansada de estar ali, só por estar. O soldado de branco me avisou que eu ia ter visita de um psiquiatra hoje. Tudo bem, né. Nem escolha tenho. Assim pelo menos, tenho a chance de ver caras novas nesse lugar intediante. O enfermeiro veio me acordar e me fez engolir 2 comprimidos. Hoje não teve injeção. Engraçado, mas não reclamei, nem por um segundo. Tomei meu banho, e vesti de novo a roupa da bunda de fora. Hoje, por medo de alguém normal ver minha bunda, amarrei de modo mais preso a camisola. Assim, não parecia quase nada. Como não tenho espelho ou olhos nas costas, ou braços esticáveis para trás, primeiro amarrei as cordinhas, e só depois vesti a camisola pela cabeça. Ótimo. Estou desenvolvendo técnicas não suicidas.

Vi a porta se mexer, tinha acabado de pentear meus cabelos, depois de muito tempo. Prendi-os com algo qualquer que achei na pia do banheiro. Ah, não contei. Meu quarto branco e sem graça, tinha um banheiro próprio, o que julgo ser normal em clínicas, mas achei interessante ressaltar. Enfim, espiei para fora do banheiro e lá estava um homem velho, com bigodes brancos e rosto cansado. Mas seu semblante era convidativo. De fato, fui com a cara dele.

- Vejo que penteou os cabelos hoje. – falou o velho ao vento, enquanto olhava sua prancheta com uma folha que devia ser minha ficha. – como se sente?

- Bem. – fui curta e direta. Meu rosto estava apático, mas creio que minha aparência melhorara de uns dias pra cá. De certa forma as sopas são bons hidratantes. Ou não. Vai saber. Não entendo de biologia ou qualquer coisa sobre substâncias e reações.

- Já fez contato com algum interno? – ele insistiu para que eu falasse. Mas ainda era difícil a formulação de frases.

- Não. – curta e grossa de novo. Esse velho parecia legal, mas não sabia cativar minha conversa.

- Tem tomado os remédios? – disse ele dessa vez dando um meio sorriso e olhando para meu rosto.

- Sim. – o que ele esperava? Empurravam essas merdas goela abaixo? Como eu teria escolha de não tomar?

- Por favor, sente aqui. – fez apontando a cama com a caneta esfereográfica, azul, Bic da sua mão direita. Ele era destro. Odeio destros. São normais demais. Odeio ter nascido destra. Achei mais uma razão para me matar: não ser canhota.

Sentei, sabia que ele faria algum tipo de avaliação médica. Abriu minha garganta, tocou as amídalas. Apalpou a barriga. Ouviu meus batimentos, minha respiração. Concluiu com um sorriso, o que me fez suspeitar de que eu estava bem de saúde. Pelo menos da saúde física.

- Você precisa de alguma coisa a mais, queridinha? – o que? Ele me chamou de queridinha? Que médico louco. Preciso mencionar que ele indagou isso com um sorriso Colgate? Pensei em nem repsonder. Mas de fato, senti falta de algo.

- O senhor pode me providenciar papel e caneta? Sinto falta de escrever. – Balbuciei isso de cabeça baixa e mirando qualquer lugar que não fosse os olhos dele.

- Vai tentar enfiar a caneta na garganta? – perguntou ele ironicamente.

- Não, não. Apenas... – suspirei- apenas sinto falta de escrever.

- Ah! Outro Mike Connor, fêmea. – falou ele com sorriso sarcástico, de modo meio baixo, mas meus ouvidos puderam escutar. Conitnuou - Providencio isso. Mas fique sabendo que papel e caneta são privilégio de poucos aqui. Cuide bem o que vai fazer senhorita. – Disse isso, virou as costas e bateu a porta de leve.

Pronto. Eu ia poder voltar a escrever. Será que minha mãos ainda me obedeceriam? Será que as rimas ainda teriam vida na minha mente? Será que eu conseguiria escrever algo? E... Quem é Mike Connor?

Uma das flores. Cap 7

-- Você acha que pode voar ou algo assim? – perguntou-me o dono daqueles olhos azuis que eu poderia jurar que foram roubados do azul do céu de inverno. Sua cara interrogativa era bizarra, mas não menos bonita.

Atordoada, não o respondi. Me entreti com os fiapos de sua barba mal-feita. Com os dentes alinhados e perfeitos, com os olhos arregalados e assustados, mas tampouco inocentes ou inseguros. Seu perfume também me envolveu. Não era uma colônia francesa ou algo do tipo, era sua pele. Exalava um cheiro de travesseiro recém lavado e sabonete. E um cheiro a mais, que não sei explicar daonde veio.

Estava boquiaberta. O que será que ele estaria pensando? Estava me olhando de um jeito curioso, como se eu fosse alguma espécie nova de macaco, ou sei lá. Ele me soltou no chão. Seus olhos azuis continuaram a me hipnotizar. Por isso não reparei em seus cabelos pretos, lisos e desordenados, na sua pele branquinha como gelo, nos seus óculos redondinhos, no estilo daquele bruxo: Harry Potter, e nem nas orelhas redondinhas, nem no pescoço largo e definido, muito menos na sua boca de lábios finos e sorriso desenhado. E tampouco na sua roupa de bunda de fora.

Ele não parecia nenhum dos pacientes que eu havia conhecido até agora. O que estaria fazendo ali? Não praticava minha fala há muito, então não consegui organizar frases para responder a simples pergunta dele.

Após passar 5 segundos do transe hipnótico, voltei o olhar á grama verde e bem cuidada embaixo dos meus pés. Lembrei do barulho, que eu continuava a escutar, e lembrei que devia ser coisa da imaginação, pois havia ali árvores, e não água.

O homem se afastou de mim. Foi então que percebi. Ele aparentava uns 30 anos com os óculos. Tinha um corpo razoavelmente normal. Nem gordo nem magro. Mas era dono de um porte muito elegante. Olhou de volta para o meio do jardim, onde agora se encontravam alguns pacientes em volta do aparelho de som e outros mexendo com suas próprias coisas. Ele voltou os olhos a mim. Ergueu a sobrancelha, abriu a boca. Mas não falou. Sorriu cordialmente. E virou as costas em direção ao jardim, após exalar fundo o ar de seu pulmão. Foi, deixando sua bunda a mostra.

Uma bunda que eu já tinha visto, e tinha achado bonita, nesse lugar onde não se tem muita coisa a escolher. Agora, podendo observa-la mais de perto, e associando a bunda ao rosto. Conclui: ele era realmente encantador. Pena que fugiu de mim.

Já tinha me conformado que tinha perdido uma bela chance de iniciação de um diálogo, quando ele virou-se a uns metros de distância e com ar de indagação de novo, e falou como quem fala ao vento:

- O que você procura fica do outro lado do jardim.

Agora sim, virou-se e sumiu entre os arbustos do jardim.

Meus pensamentos não eram concretos. Fugiam antes de eu poder completá-los. Quem era esse anjo que me protegeu da queda? Como ele sabia o que eu procurava? Como ele se acha no direito de me virar as costas? Por que não o vi antes? Quem ele pensa que é com aqueles óculos, e com aquela postura? Ele acha certo ficar por aí mostrando aquele fenômeno chamado bunda? Ta, nesse ponto me arrependi. Afinal, eu também estava com a bunda de fora. E se ele como eu também repara nas bundas? Nunca mais andarei sossegada por esse lugar.

O jardim ao qual me referi ficava na parte de traz de uma casa enorme, onde funcionava a clínica. A casa tinha janelas de alumínio, tais como as persianas e os bancos do jardim. Mas estes eram pintados de branco, fazendo assim, um contraste com algumas flores que insistiam em nascer nos arbustos e nos canteiros. Do lado do muro onde eu estava, além de trepadeiras, tinham 5 macieiras nessa época do ano sem frutas, e umas árvores que julguei estarem ali só por uma questão paisagista. Mas não importa, eram de bom gosto.

Sentei-me então, em um dos bancos de costas para a mata que eu agora odiava. Continuei a ouvir as ondas. Vezes mais fortes, vezes mais fracas. Lembrei da frase do anjo: “O que você procura fica do outro lado do jardim”. O que ele queria dizer com isso? As ondas estariam lá? Ou ele estava querendo era me ver cair do muro de novo, sem me salvar dessa vez? Cansei de pensar. Me habituei ao comodismo. Seria difícil largar. E mesmo porque, chegara a hora do sol se por e a hora de eu engolir mais sopa com sopa...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 6

Julguei ser imaginação. Mas o barulho me perseguia diariamente. Depois que voltei a ver o sol, passei também a ouvir barulhos de ondas. Água que sobe devido a lua, e se espatifa nela mesma, provocando espumas e causando dor a quem está embaixo, ou prazer a quem está no meio. Será que sou uma onda? Ah, bem que eu poderia ser. Vem e vai numa leveza sobre-humana, sobrenatural. Mas juro que para minha imaginação, o barulho se tornara muito mais real. Real demais. Devia ser efeito dos remédios. Naquela tarde, um dos soldados de branco trouxe um aparelho, que pelo que me recordo é um aparelho de som. Colocou o CD, e deixou ligado no modo “REPEAT” o resto da tarde. Foi bacana. Gosto de sons diferentes, para variar. Sentia-me mais forte depois de um almoço revigorante de sopa com sopa e gelatina de sobremesa. Mas a gelatina é gostosa. Não posso reclamar. Já da sopa, nem quero comentar.

Resolvi! Quero dançar. Desci da minha cadeira com rodas, que me acompanhou nos últimos dias. Minhas pernas bambearam, mas eu fui mais forte que elas. Afinal, quem comanda ainda sou eu. Pelo menos se não da minha via, das minhas pernas ainda sou dona. Tola. Caí. Confiança demais. Segunda chance: um soldado de branco me ajudou, e assim levantei e dei dois passos. Logo ele se afastou. Senti um ventinho na bunda, que afinal estava levemente descoberta. Foi desconfortável, mas ninguém ali jamais repararia. Dei de ombros, e segui. Segui ao ritmo da música, girei e sorri como se tivesse em algum parque, em algum lugar distante dali. Como se eu fosse criança, e o mundo me pertencesse. Ao menos naquele segundo.

O barulho de ondas, o cheiro de areia e a maresia não podiam ser só minha imaginação. O que haveria além dos muros? Aonde eu estava afinal? Comecei a pensar. Quem sabe agora meu neurônios respondessem mais, e as sinapses tivessem ficado mais fortes. È. Quem sabe.

Queria ir além daquele muro branco, e eu queria conseguir. Ou no mínimo tentar ver através dele. Não, não tenho visão Raio-X, mas tenho pernas e braços. E tenho a inteligência que ninguém aqui nesse lugar tem. Ou já teriam visto o que eu queria ver.

Delicadamente desastrosa, agarrei o galho de uma macieira ainda em crescimento, mas forte o suficiente para me agüentar. Escalei por entre o concreto do muro e as cascas da árvore. Me agarrei na trepadeira que insistia em vir para o meu lado do muro. Trepadeira burra, lá fora é melhor. Segurei nela e vi.

Vi a decepção enrubescer o meu rosto de raiva. Não tinham ondas. Tinham árvores e mata além da mata. Notei a areia no chão e a vegetação rasteira sob as copas das árvores, mas não fiz nenhuma associação. A decepção foi tamanha, que meus lábios tremeram de leve e meu semblante empalideceu. Acabei caindo do muro. Caí nos braços de um anjo.

15/09/09 KS

Uma das Flores, Cap 5



Sol. Estrela maior. Estrela brilhante, sol nascente, sol poente. Sol.

Gosto do sol. Deixaram-me longe dele por semanas. Senti falta do seu calor. Da sua luz, da sua força, energia inacabada. Você sabia que a luz do demora oito minutos até chegar a Terra? Você sabia que a Terra é vista azul por causa dos gases que envolvem nossa atmosfera? Você sabia que gases liberam cores? Você sabia que as cores me devolvem a vida, e a vida me tira da sobrevida? Dê-me cores!

Estava eu, muda, apática, telepaticamente comunicativa, vocalmente restrita. Não! Não falem comigo. Quero silêncio, quero paz. Borrachas são feitas do látex da seiva da árvore. Eu sou feita do liquido do útero da mãe. A mesma mãe, cujo liquido vim, me deixou aqui. Sem sol e sem cores. Eu não consigo amá-la. Não agora. Talvez, depois. Talvez daqui cinco minutos. Só cinco.

Revirei os olhos, prendi a mandíbula. Doeu. Saco! Senti um comichão em cima do umbigo. Barulho! Fome. Eu estava com fome. Fome? Não sabia o que era isso nos últimos meses. Talvez eu tenha emagrecido. Ou não. Tanto faz. Não uso mais espelhos. E são os espelhos que me engordam. Assim, estou bem. Obrigada.

Todos eles loucos, todos psicopatas, todos mentalmente incapazes. Eu não. Sou a única sã dentre essas mentes repugnantes. Odeio todos eles com bunda de fora. ..

Ótimo, agora eu estou com a bunda de fora. Quem tirou minha calcinha? Morra seu verme tarado. Ah, é. São enfermeiros.

Gosto de enfermeiros. São homens. São bonitos. Mas só alguns.

Até breve!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 4


Xícara verde em cima da escrivaninha de um computador meio velho. Uma colher dentro. Leite coalhado. No fundo, pó de achocolatado. Tentei desviar o olhar. Impossível. O remédio era forte demais. Aquela xícara era bonita. Tinha umas libélulas pretas desenhadas, pareciam que estavam presas ali. Queriam sair! Mas nem elas podiam, e nem eu podia ajuda-las. Triste fim libélula. Lembrei de um filme. Interessante, algo sobre libélulas, morte, espíritos e destino. Ah! Porque essas pobres almas mortais insistem em achar algo mais? Contentem-se com o já e agora! Porcos imundos. Saukerl!

O pensamento do filme delineou-se de um jeito louco na minha cabeça, assim lembrei de Hamlet. Ah, como adoro Hamlet. Psicótico? É, foi o que o Leão Gay disse. Acredito nele, se quer saber. Foi então que incitei uma discussão sobre como Shakespeare era bom. Falou sobre Complexo de Édipo antes de Freud?!?! Sim, era bom mesmo. Gosto dele. Pena que aqui nesse lugar branco e estofado e úmido e com cheiro de urina, não existam cores. Gosto delas, assim como das poesias. Assim como dos cheiros, e dos homens. Mais dos homens mesmo.

Perdi noção dos dias, e eles perderam noção de mim. Já não sabiam da minha existência. Falo dos dias. Ou talvez dos homens, nesse ponto meu raciocínio se confunde com o que é real e o que é sonho. Eu sonho? Não me lembro. Essa injeção que me aplicam diariamente mata meus neurônios, e minha ânsia por escrever e criar só faz desaparecer. Me sinta inapta a respirar, a andar, a viver. Dois meses alternando entre um quarto branco e pálido e um quarto acolchoado e fedido. Me sinto o próprio Marquês de Sade na sua última e definitiva prisão de pedra. Não, não escrevo com minhas fezes. Não cheguei ao ponto dele. Ainda.

Após dois meses de loucura remediada, vi o sol. Vi Mike. Vi todas aquelas bundas nuas. Confesso que algumas era sexys, mas outras nojentas. Gostei da bunda de Mike. E nem sabia que era Mike. Como disse, gosto dos homens. Homens petulantes, homens presunçosos, homens com um “Q” de machista, homens que são fracos, e aqueles que precisam de mim. É! Gosto do Mike.

Beijos meus botões de rosa e jasmim, beijos meus cravos e gerânios.

KS 14/09/09

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uma das flores, Cap 3

As minhas lembranças se confundem nas épocas, então me perco entre as linhas de pensamento e já não consigo delinear uma razão para ter tentado encontrar a morte.

Durmia essa noite quando surgiu numa memória distante e adormecida, um episódio que nada teve a ver com o atentado a mim mesma, mas acho que seria interessante, caro leitor, você saber com que tipo de pessoas você cruza na sua vida...

A pobre menina que nada tinha de pobre recostou a cabeça no colo do bondoso homem, que a tanto fez rir. Hoje, por algum ato insano e cruel do destino, aquele bondoso homem estava um tanto embriagado. Mas o carinho que a menina mantinha por ele continuava vivo. Um pouco de álcool nunca fez mal a ninguém...

O homem não era seu pai, mas esteve presente na sua vida tanto quanto um pai, ou um amigo mais velho próximo. Ele costumava arfar as lindas e compridas madeixas da menina, dizia que assim poderia recordar a filha que agora adormecia no esplêndido leito de morte.

Naquela noite específica, não me recordo quem estava na casa, mas estávamos eu e ele sozinhos na sala. Como sempre, ele arfou meus cabelos e sorriu para mim. Eu retornei o sorriso. Mas percebi que algo estava diferente. Havia algo de podre e ruim nele. Bem, achei que devia ser impressão boba de menina mais boba ainda. Quem dera. Ele cheirava a álcool, á vodka da mais vagabunda.

Parou de mexer nos meus cabelos, eu me assustei. Sua mão como que por mágica agora estava sobre minha perna, perto da região dos joelhos. Olhei, e não acreditei. Não queria aquela mão ali. Não! O coração da menina bateu angustiado nos segundos que a mão do velho se estendia pela pequena, mas não magra, perna. Com impulso levantei, já não estava em mim. Eu simplesmente tinha saído. Não queria estar ali. Sentei no sofá.

Sem olhar para mim, ele escorregou sua mão de novo pela minha coxa que era ainda de menina. Tremi de medo. Saí do sofá e sentei no chão. Pernas cruzadas no chão da sala. Não, não sentei encostada no sofá. Sentei bem distante, no meio da sala. Bem em frente á televisão. Tentei por algum segundo esquecer, sem chance. Quando dei por mim, ele estava de cócoras ao meu lado, e sua boca veio em minha direção e beijou minha testa, lambuzando-a de saliva alcoólica. Saltei cabisbaixa, engoli todo meu choro e prendi meu coração para que não saltasse. Saí o mais depressa que pude. Ele fixou seus olhos na TV, e ali ficou.

Andei pelo corredor da casa, o caminho mais demorado. Ao menos parecia. Entrei no banheiro e fechei a porta. Não sabia se chorava ou se sentia nojo, ou se odiava aquele homem que fora tão doce pra minha infância até ali. Com raiva e rancor, peguei o sabonete e esfreguei na mão fazendo espuma, lavei a testa e todo o rosto, com medo de que ali tivesse ficado algum resquício daquele velho nojento. Lavei uma, duas ou três vezes. Sequei o rosto e recostei minhas costas na parede fria do banheiro. Queria chorar, mas não sabia se tinha algum motivo específico. Não sabia o que significava aquele acontecimento. Mas sabia que não contaria a ninguém, e sabia que tinha sido errado e mal.

Nunca mais gostei do velho maldoso. Bem, algum tempo depois ele foi embora pra nunca mais.

Eu tinha 8 anos.

KS 08/09/09

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Uma das Flores, Cap 2

A tristeza é um fato. A depressão é uma arte, e a vida é pra quem tem sorte. Entrei em crise familiar aos 16 anos. Não, meus pais não se separaram, mas minha relação com eles foi de mal a pior, e pior, e pior, e pior a cada dia que terminava. Não era culpa minha, não era culpa deles, culpar quem então? Aliás, pra que culpar? Ah, meu querido, sempre que algo da errado , mesmo que inconscientes tentamos procurar um culpado... não aceitamos que as coisas acontecem por fatores externos e incompreensíveis a seres tão pouco instruídos e tapados. Me refiro a vocês, leitor, humano.

O fato é o fato, as coisas que não poderiam ficar pior, ficaram. Agora além de ignorada, eu simplesmente parecia não existir pra ninguém. Me afastei dos amigos, não agüentaria mais muito tempo conversas longas e duradouras sobre roupas e afins, nem sobre qualquer outro assunto. Então, para não prejudicar pessoas que eu supostamente deveria gostar, me afastei. Com isso, afastei-me das festas, dos cinemas, das pizzadas, das bebedeiras típicas da adolescência rebelde, que pra mim não fazia sentido agora. Eu estava tão dentro de mim, que criei uma espécie de barreira de proteção. Afastava aqueles que se aproximavam, e acaba com o dia daqueles que teimavam em ficar ao meu lado. Cansei de ouvir coisas como “Você está estranha”, “Você está bem?”, “Você não é mais a mesma”. Dá pra parar de me torrar o saco e me deixar sozinha?!?! Cinco minutos, é tudo que peço. Mas eles pareciam não ouvir, ou não entender, ou simplesmente faziam questão de não entender e continuar ali, torrando.

Foi nessa atmosfera de dor, de claustrofobia de vida, de desejo de morte, e raiva profunda de mim mesma e do mundo que tentei suicídio, secretamente.

Eu pensei em vários jeitos de encontrar a morte, passei algumas semanas com planos infinitos e completamente insanos. E acabei querendo morrer da maneira mais idiota. Atropelada. Atravessei uma avenida movimentada. O idiota do motorista de caminhão resolveu parar e me xingar. Maldito! Eu só queria que ele não tivesse visto aquela garota desesperada e doente na frente dele. Resultado, primeira tentativa: FAILED!

Ah, mas eu não desistiria tão cedo. Pensei em tiro, mas não tinha arma. Pensei em cordas, mas não tinha onde pendura-las. Pensei em doenças, mas me dava angústia por pensar em ficar e doente e sofrer numa cama de hospital. Sofrer mais?:Oras, já estou sofrendo aqui. Quero é me libertar. Foi então que resolvi tomar veneno de ratos. Já tinha ouvido histórias sobre pessoas intoxicadas com aquilo. Mas eu não, eu ia eras morrer. Eu queria tomar aqueles venenos azuis, os rosas não fazem efeito algum além de intoxicar. Eu queria tomar o pacote inteiro. Bastava comprar... Segunda tentativa: FAILED! Eu tinha tomado só cinco cápsulas quando meu pai chegou em casa e me viu com elas na mão e um copo d’água. Nesse instante eu desmaiei. Acordei num hospital dois dias depois. Isso me frustrou. E o que viria depois, me frustraria mais. Meus pais pegaram o pouco dinheiro de suas economias e me internaram num hospital psiquiátrico. Relutei, mas como lá eles me davam tranqüilizantes, me sentia leve como num parquinho na infância. Os maus pensamentos simplesmente não existiam. Lá eu conheci um astronauta, um médico cirurgião, um coveiro, um juiz, uma babá louca, e um esquizofrênico que dizia ser escritor mal intencionado. Nome? Mike Connor. Meu Mike.

Estou cansada por demais hoje, meu rim direito está levemente dolorido. A idade chega, e as dores e afins vem de brinde. Vou descansar. Até outro dia, caro leitor.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Fazer História.




agora,
me resta fazer história
só me resta...
história esta...
minha e tua
nua e crua
pra sempre nossa
vou compor nossa Bossa

vou deixar nosso pedaço
nossa marca
nossos amassos
vou te embalar, do amor, na nossa barca
vou relembrar os abraços apertados
os beijos demorados
e os no muro escondidos,
proibidos

Vou fazer-te recordar
em minhas lembranças
reconquistar o amor que já é meu
deixar provar aquilo que é teu
só teu...

Recostar a cabeça no travesseiro,
nas almofadas, os cabelos
na pelúcia, os braços
no colchão, os entrelaços

em mim, tua vida...

KS 28/08/09

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Gosto do outono.



Gosto do outono
não porque é frio
mas por faz-se frio com o vento
não poque é úmido
mas por fazer-se úmido pela chuva
que insiste em brotar das nuvens e gotejar dos telhados
não porque gosto de folhas caindo.
mas porque quando elas caem, eu me lembro que faço parte
de toda essa coisa que chamamos vida.
Que como as folhas eu caio,
e como as folhas, eu renasço a cada primavera
Gosto do outono, pois suas cores são únicas
suas folhas avermelhadas me lembram sangue
me lembram amadurecimento
me lembram que ficamos velhos...
e que de certa forma, amadurecer nem sempre é bom.
mas faz parte de um todo.
que precisa do maduro
que precisa do vermelho
que precisa da queda
que precisa do renascer.
e é no outono, que o sol nasce de frente a minha janela
nos dias que as nuvens permitem
e são nesses dias que sou acordada pelo seu raio, ofuscando meu sono.
e por únicas vezes, não acordo de mau-humor...
Gosto do outono não pelas árvores que secam,
mas pelas folhas que caem no chão e acalentam minha queda.

Kika 26/08/09

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Eu sou a mosca que posou em sua sopa (8)

"te jogo fora e pego outra!"

(dedicado á Carolyne)

Uma das flores. Cap 1


Aqui, deitada nesta rede, de frente para o mar. No auge dos meus sessenta anos, consigo olhar para o passado e riscar uma linha do tempo. Então as memórias me banham com saudades. E sinto falta de não ser mais aquela garota de 17 anos, que ainda acreditava em amor pra sempre e nos homens. Mas principalmente, acreditava no melhor que a vida tinha a oferecer. Pena que hoje, já não encontro quase nada daquela garota dentro de mim. Os anos vieram. E trouxeram junto as rugas, a flacidez, o mau-humor, a falta de desejo, a experiência, o desânimo, o reflexo repudiado do espelho, os filhos, os netos, a viuvez, os cabelos brancos, já impossibilitados de serem cobertos por química, a cama vazia, a casa vazia que se enche aos domingos e me trouxe as lembranças de um passado lindo. Um passado de dar inveja a qualquer história de novela das 8. Como tenho saudades. Mas ao mesmo tempo, penso que se tivesse sido eterno, não teria sido tão bom quanto foi.

Vivi um amor bonito, dito impossível de ser conquistado, pensado ser diferente de tudo que a sociedade já vira... E acredite, a opinião das pessoas pode não importar, mas influenciam sua vida, todo tempo.

Me apaixonei por um louco, maluco, esquizofrênico, depressivo, reprimido, débil... Chame do que quiser. De fato o conheci em um manicômio... Mas isso nada quer dizer. Ou quer?

Bem, o fato é que me apaixonei, e jurei que jamais conquistaria o amor dele. Como fui boba. O sentimento foi recíproco. Ah! E depois descobri que ele não era louco, como todos pensavam... Ele era apenas um artista incompreendido, vamos assim dizer.

Agora, me pergunte, vai, eu sei que quer saber. Por que diabos estava no manicômio, então? Simples, misturou-se com seus personagens. Sim, era um escritor. Criava personagens totalmente anormais para a sociedade. Mas inteiramente normais nos livros de Mike.

Mike Connor, era esse seu nome. Inglês? Não, não. Metido a inglês. Sua família tinha o sobrenome, mas era já completamente brasileira. Mike? Ué, para combinar com o Connor. Eu também achei bizarra a escolha. Mas no todo, fica um nome bonito. E para um escritor é fácil de ser decorado.

Mike procurava misturar-se aos seus personagens, para definir melhor o que era ou não anormalidade. Não, não escreveu apenas sobre loucos. Escreveu sobre advogados, médicos, publicitários, coveiros, faxineiras, lavadeiras, porteiros... e assim por diante. E sempre fazia se passar por um. Como não descobriam? Fácil. Ele não gostava de fotos ou câmeras. Fugia de autógrafos ou qualquer evento. Era de fato, estranho.

Famoso? Ah, não. Na verdade um pouco era. Eu o compararia ao Dalton Trevisan, exceto pelo seu humor cáustico e sua fama de vampiro.

Oi? Se Mike fugia das fotos porque era feio? Ah! Longe disso. Não era feio. Era metido e impetuoso. Sua cara petulante, me dava nos nervos. Mas seu cheiro me excitava de um jeito único. O quê? Me achou vulgar? Ah! Vá tomar no cú. Não sou vulgar. Não, longe de ser um velha perturbada, apenas... ah, veja bem ,eu devia ter os hormônios muito aguçados na época. Ninguém pode prever o desejo de uma jovem de 17 anos, ou pode?

Não me julgue leitor (a). Se não tem desejos, só devo pena a você. Se tem, sabe do que falo. Pode compreender porque o cheiro da pele desse cara me deixava tão zonza e perdida.

Mas você ainda deve estar cheio(a) de perguntas. Guarde-as para um próximo encontro. Sinto que preciso fechar os olhos. O horizonte após muito ser contemplado, vira uma espécie de relógio hipnótico, principalmente quando se tem a minha idade.

Beijos, meu querido.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Me disseram certa vez que a vida é como um orgasmo...
começa com desejo
há então a expectativa
o apse
e você por fim vê tudo esvaindo por entre os dedos.

KS 12/08/09

domingo, 9 de agosto de 2009

contando as horas...

estou contando as horas
já não aguento
maldito relógio parou
ele está contra nós
sempre odiei relógios
sempre odeiei ficar com ele a sós
me traz recordações de um tempo passado
e de um presente.
e o futuro, nele não existe,
OU se existe demora

Kika 23/04/09

que cor é o céu?



Que cor é o céu?
Já não sei definir.
Hoje aparentava ser cinza,
e hoje já não lembro que cor era.
Costumava observá-lo e admirá-lo,
acabou o tempo.
Passei a observar o teto do meu quarto.
E novamente acabou meu tempo.
Foi então que percebi que só poderia observar um único teto.
Que seria do meu caixão. Para esse sim eu teria toda a eternidade.


KS- 06-06-09

.



Já não tenho lágrimas pra chorar
Já não tenho pessoas a odiar.
Tenho a mim mesma,
para condenar
por erros meus e escolhas minhas
talvez não erradas e muito menos acertadas.
Mas ecolhas divergentes,
que fazem minha vida tomar rumos opostos
rumos com os quais já não sei lidar.
então volto a questionar:
onde estão as lágrimas?
onde estão as pessoas?
Quem sou eu agora?
Já não sei responder.

06-06-09
KS

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Caroline

Ela observava a fonte, que ficava no meio da praça. A fonte de água agora suja. Aspecto antigo, mas rebuscado. Ela ficou paralisada ali, debruçada sobre o para-peito de ferro, com a tinta lascada. Ficou debruçada, mesmo aquilo gelando sua barriga por cima da camiseta fina que vestia. Seus olhos imóveis. Seu piscar interrupto e silencioso. Sua respiração quase inexistente. A água suja captou seu olhar de um modo único. Como há muito, nada captava sua atenção dessa forma. Bom, pelo menos não depois de ter visto a vida de seu namorado esvair-se na sua frente. Foi algo brutal demais para esta pequena.

Caroline o nome dela. Como tantas outras carolines no mundo. E aqui menciono “caroline” com letra minúscula, transformando-a em substantivo comum. Porque é isso que ela é. Uma pessoa comum, como tantas carolines que passam, passaram ou permanecem na minha vida. Algumas com Y outras com K, outras ainda com “n”, “l” ou qualquer outra letra a mais. Para mim, todas iguais. E todas tão diferentes.

Calma! Não posso perder o foco. Falava de um certa Caroline, de um certo cadáver, de uma certa fonte, de uma certa vida, de um certo momento.

Ah sim! O cadáver. O cadáver do namorado de Caroline. E nem devo mencionar seu nome. Não. Aqui ele é só: Namorado de Caroline. Bonito era o rapaz. Morreu num racha. Filho da puta, ainda bem que Caroline pediu para sair do carro. Senão o destino teria se igualado para ela. Pera aí! Ainda bem? Ainda bem que ela saiu? Mil vezes ela tivesse ficado com seu namorado até o fim. Era o que se passava na cabeça da pequena Caroline. Ela preferia ter ido junto, do que ver seu amor simplesmente fugindo por entre seus dedos. Preferia ter ido, do que agora estar numa fonte de água suja. Pensando sei lá Deus no que. Mas com certeza não era algo bom de se pensar. Ou era. Depende do ponto de vista.

Os olhos dela percorreram toda borda da fonte. Em seguida retomou o ohar ao para-peito. Aí, ficou a admirar as belas curvas das estátuas femininas. Riu-se ao perceber um cano saindo do meio das dobras do glúteo de uma delas. Achou aquilo engraçado e confuso. Olhou para os buracos além das estátuas. Buracos aqueles deveriam jorrar água nova. Mas que estavam secos.

Retomou a olhar a água. Suja, fétida. Riu-se de novo quando lembrou, certa vez, ter visto um bêbado pegar água daquela mesma fonte para beber. Mas esse riso, não foi riso. Foi choro. Um choro pela vida miserável que o bêbado devia estar levando na época. De certo estaria tão deseperado quanto ela. Ela, que repetidas vezes olhava para o caminho de pedras que levava a uma espécie de portal da praça. O mesmo portal por onde viu o seu namorado passar. Passar tantas vezes... Eles se encontravam ali com frequência. Hoje, bem hoje ela insistia. Queria pensar que tudo aquilo que vivera desde o último dia 1º, tinha sido apenas um pesadelo. Um pesadelo longo e interminável. Olhou. Olhou. Olhou. Nada. Seu pescoço já estava dolorido de tanto virar-se. Ela começava a cair na real. De novo.

Foi abordada por um vendedor de chaveiros. Não, obrigada! Por um hippie e seus brincos. Não, Obrigada! Por ex-drogados pedindo auxílio. Não, estou sem dinheiro. Sorriso amarelo.

Todos aqueles. Todos perturbando Caroline. Que desaforo. Não deixavam a pobre observar a água suja da fonte. Mas que merda!

Subitamente, ela voltou seu olhar esperançoso para o caminho de pedras, do portal da praça. Fora sua última chance. Ele morrera. Não estava mais aqui. Nem pudera. Seu corpo fora carbonizado no acidente. O carro do Namorado de Caroline pegou fogo assim que colidiu com o outro. Mal deu para pegar as cinzas para o funeral.

Ela lembrou-se disso. Riu dela mesma. Riu da situação que se encontrava. Mas não era um riso de alegria. Mas um riso que queria chorar. Um riso que tinha por dentro, facadas no peito. O mesmo riso que a morte dá quando vem coletar as almas humanas.

Caroline colocou a mão no bolso da calça. Tirou umas pílulas branquinhas. LSD. Conseguira com sei lá quem, sei lá onde. Apenas conseguiu. Engoliu-as a seco. Alguns poucos minutos...

O efeito começou. Ela começou a correr leve e saltitante ao redor da fote. Falava comas estátuas, que pareciam responder. Fez piada com a estátua do cano na bunda. Chegou perto dos canos que deviam jorrar água e ... puuuuuuuuufff. O cano jorrou água.

Todas as outras saídas de água se abriram em seqüência. Jorrava água limpa. A sujeira ia decantando ao fundo da fonte. As estátuas, agora molhadas, estavam coloridas para Caroline. Mesmo sendo feitas de pedra.

Caroline se viu num sonho. Ela queria aquela água. A mesma que o bêbado procurou. A mesma que via pessoas estranhas todos os dias a olha-la. Caroline despiu-se. E foi jogando uma peça de roupa pra cada lado. As pessoas passavam, olhavam. Algumas riam. Outras achavam um absurdo. Mas Caroline não se importava. Pois como disse certa vez João Virgovino: “Eu não posso existir para bilhões de pessoas, é muita gente. Existo apenas para as que são importantes pra mim”. Assim ela não existia para nenhuma daquelas pessoas. E nenhuma delas existia para Caroline.

Era só a Caroline e a água que jorrava, límpida e gélida. Só a água... água... só... água... límpida... só... água...

Ela subiu no para-peito, ainda nua. E se atirou para dentro da fonte. Seu corpo deitou no chão azul claro da fonte. Toda água sobre ela. Mas Caroline já não existia. Era a água que jorrava. Caroline se esvaiu, como num sonho.

As pessoas paravam e olhavam. Logo apareceram policiais e para-médicos. Mas Caroline já tinha ido. Tarde demais.

KS 05-08-09

terça-feira, 4 de agosto de 2009

órgãos desfalecidos

Ainda há pouco tive vontade de vomitar tudo. Tudo do nada que eu comi hoje. Parecia que vomitaria todo o esôfago seguido do estômago. Ele ficou embrulhado. A dor não parava. Subia e descia. Senti até no útero. Como se todos os meus órgão quisessem escapar. Queria por alguns segundos que eles escapassem. Me faltou ar, aí pareceu que o pulmão havia se desfeito. Chorei. Esperneei no chão. Eles lutavam dentro de mim. Eu queria que eles explodissem, e que eu fosse junto. Só isso que eu pedi. Uma prece não concedida, como tantas outras. Apenas, joguei de joelhos ao chão. E o ar faltou novamente. Pronto! Foi o outro pulmão. Vã esperança. Estavam todos lá desgraçados. Vendo a minha queda. Nem seque pra me ajudar? Que tipo de partes de mim vocês são? Bando de carnes com veias inúteis. Pensam que preciso de vocês? Não preciso. Não se quero morrer. Apenas, me deixem febril. Merda, nem isso arranquei. Senti a testa quente. Coloquei o termômetro. 36.2 ºC. Merda tripla. Nem doente sou capaz de ficar. Órgãos in úteis, né pra ficarem infeccionados vocês servem! Só pra fazer doer. E isso já me basta um.


.

È como se eu quisesse sair do velho. Como se o novo me chamasse, sem nem mesmo eu conhecer. É de tarde, e o sol de inverno que agora adormece, me faz lembrar o quanto eu preciso estar longe de tudo que me faz lembrar de você.

Olho para o chão e vejo a poeira dos pés que já não entram. Poeira da alma que agora eu tenho, e não vejo nem sequer lembranças dos dias bons. Olho a lista de afazeres e me enterro no travesseiro. Não tenho vontade ou sequer prazer em nada disso. Me enterro nos cobertores pesados. Nos cobertores que quero chamar de terra. Pois me sinto morta, como em um caixão. A cabeça dói, então me dá a certeza que infelizmente ainda estou viva. Logo meu estômago que já há tempos não reclamava, hoje sente fome. Não adianta tentar comer. Comer me lembra ser humana, e é tudo que eu menos sou agora. Deixe-me aqui. Leve-me para os jardins floridos e deixe-me morrer. Quero apenas sair do velho. Tire minha alma e recorra ás minhas mãos. Segure-as. Só por isso ainda dependo de você...

KS 04/08/09

domingo, 2 de agosto de 2009

Porque eu sou a primeira e a última Eu sou a venerada e a desprezada Eu sou a
prostituta e a santa Eu sou a esposa e a virgem Eu sou a mãe e a filha Eu sou os braços de
minha mãe Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos Eu sou a bem-casada e a solteira
Eu sou a que dá à luz e a que jamais procriou Eu sou a consolação das dores do parto Eu
sou a esposa e o esposo E foi meu homem quem me criou Eu sou a mãe do meu pai Sou a
irmã de meu marido E ele é o meu filho rejeitado Respeitem- me sempre Porque eu sou a
escandalosa e a magnífica
Hino a Ísis, século III ou IV (?), descoberto em Nag Hammadi


(retirado de Onze Minutos - Paulo Coelho)

Pedra

A pedra de mil pontas foi feita
dura a rocha, longe de ser perfeita
cinza a pedra de mil pontas já quebradas
se acaba quando pelo vento é tocada
se acaba quando pela água é molhada
se acaba quando na areia de econtra
mesmo pedra quando tocada desmonta.
Mesmo pedra, é fraca é frágil.
Não é pedra.
Não é ágil.

KS 2/08/09

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O doce veneno do escorpião

Esse é o título do livro da Bruna Surfistinha. Ela era uma garota de programa, se tornou conhecida em programas de televisão. E lançou seu livro há algum tempo atrás. Eu tive o prazer de lê-lo mês passado. Vou passar a vocês o LINK para baixar.


Este livro está longe de ser considerado best-seller ou qualquer coisa do gênero. Até nem é muito bem escrito, mas o que me interessou foi exatamente isso. O modo como ela mesma, sem instrução literária, conseguiu colocar no papel tão claramente sua biografia. Depois de ler, criei uma visão um pouco diferente sobre essa profissão.
Espero que gostem!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Matar sem efeito

Matar sem efeito
é uma idéia que nada merece
é uma idéia que não cresce
vem e daparece
de fato, certas vezes permanece

ah! quer saber?
esquece...

vou apenas apontar meu lápis
e afiar minha tesoura
preparar tem mais efeito
que o fato feito
preparar é o antes
ideias desconexas e distantes
me mande as folhas anexas
e as flores mortas
abras as portas...
Vou viajar de avião!
As folhas?
são bombas plantadas no chão
as flores?
são a beleza que do morto enfeita...

pergunto-me, por que que viva estão?
porque esse inúteis precisam pensar que fazem,
quando na verdade assistem.


KS 28/07/09

sexta-feira, 24 de julho de 2009

.
meus sentimentos também não fazem sentido
meus pensamentos já distantes o suficiente também nao fazem
indefinidos apenas. não sei dizer
apenas que você está neles
não importa onde nem quando, mas está
não sei o que querem dizer, mas voce está lá.
apenas... nao pergunte e continue aqui comigo.
faça-me companhia.
horas ruins virão, apenas preciso de voce comigo.
quem sabe amanhã poderemos nao estar mais juntos.
e um adeus tomará conta de nossos corações.


KS 24-07-09

terça-feira, 21 de julho de 2009

Uma carta

Fiquei a ouvir hoje minhas músicas antigas. Apaguei aquelas fotos que um dia mostraram nossos sorrisos dados de bom grado um ao outro. Esses mesmos que hoje dão lugar a pequenas e secas lágrimas.

Fiquei sentado na frente da tela desse computador apagando os inúmeros arquivos com poemas apaixonados que você fez para mim.Reli um a um a medida que apagava. Não me arrependi de nada que fiz. Não me senti culpado por ter simplesmente saído da sua vida.

Fiquei feliz, pois vi que você nunca precisou de verdade de mim e continuará como sempre foi.

Vai achar alguém para você. Estou apenas te apagando...Não que eu imagine que dê para simplesmente te deletar da minha mente, mas de fato, acho que posso amenizar minha dor se não precisar olhar para os objetos ou arquivos de uma pasta qualquer e lembrar que um dia, mesmo que por pouco tempo, existiu você.

Você que me fez o homem mais feliz, mas que hoje já não tem essa força. Lembro que quando te conheci, você era alegre. E seu sorriso me conquistou no mesmo minuto em que te vi. Pensei que poderia te amar a cada segundo para toda minha vida. Mas não sabia o quão difícil seria. Hoje olho pra trás e não vejo mais sorrisos nem afeto nos últimos momentos junto contigo. Possivelmente eles já não existiam. Então resolvi sair. Desculpe por não te deixar uma carta ou explicação sequer.

Não conseguia. Juro. Tentei começar umas 10 cartas, mas nenhuma seria suficiente para explicar essa decisão. Talvez se interesse em saber... Estou velejando pelo pacífico, como era meu sonho. Meu notebook me acompanha para eu não perder nenhuma inspiração que venha a surgir nessa minha mente bagunçada. Preciso por pra fora tudo que se passa no meu desajeitado coração.

Olho esse mar, e a cada por do sol pensava em você. Mas isso foi durante o primeiro. Hoje, passados 5 anos, quase não me recordo mais. Apenas observo o sol. Como se ele tivesse marcado bons momentos da minha vida. Meu cérebro ás vezes me engana, e eu perco algumas memórias, deve ser por causa da degeneração de umas células nervosas. O médico disse que isso aconteceria. Não! não se preocupe, não estou sozinho. Tenho um enfermeiro que serviu na marinha. Ele virou meu melhor amigo... Conversamos ás vezes.

Mas só ás vezes. Não tenho paciência para muita coisa.

Hoje em especial creio que foi o dia que mais chorei desde que te deixei. Apenas acho que foram as últimas lágrimas. Não me ache cretino... Apenas queria que você ficasse bem... Não vou dizer que fiz isso pra sua felicidade.

Não! Sou muito egoísta para tal. Pelo contrário, fiz pela minha. Quando soube que eu teria poucos anos de vida, resolvi realizar meu sonho e velejar. E se deus permitir, morrerei aqui mesmo. Nessa imensidão azul...

Obrigado pela sua dedicação durante os anos em que vivemos juntos. Não chore jamais por mim, não mereço uma lágrima sequer.

Mas acredite ou não, você foi a mulher da minha vida!

Mesmo que a doença me faça te esquecer as vezes, meu coração sempre se lembrará.

KS 21/07/09

Um velho

um velho. uma criança. um choro. uma boneca. um pedido.
uma negação. uma chantagem. um consentimento. um trauma.

Um adeus

uma porta. uma cama. uns cabelos. uma boca. uma língua.
um rasgo. um barulho. um gemido.
um grito. um suspiro. um lençol. um adeus.

Feliz daqui

o homem que aqui se apresenta, da minha vida aos poucos se ausenta.
há de longe a vã esperança do retorno. e de perto vê-se a cachoeira
por entre as maçãs do rosto desta pequena.
vejo por fim o vermelho, espalhado na face, acalmar-se.
vejo então o portão da minhacasa se fechando. desculpe. mas terei que
abrí-lo de volta amanhã. não posso me dar ao luxo de resguaradr a tua falsa
morte. Beijos. até um outro dia. mais longe quem sabe. ou mais feliz daqui.

KS 21/07/09

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Meu Jazz

O que te afeta em mim, não são meus sorrisos, nem minha disponibilidade de afazeres,
mas o agitar do vento em meus cabelos e as luzes dos refletores que insistem em me seguir.
O que te afeta são as pessoas a minha volta rindo, e as lágrimas pálidas
e cálidas que tendem a cair do seu rosto. Bem queria você que isso também me afetasse,
mas para alguém que um dia foi meu tudo, você está um ótimo trapo para servir de tapete.
Hoje suas palavras se recolhem a esmo. Pois ontem, elas foram proferidas da mesma forma.
Hoje simplesmente vou sentar no meu sofá e ouvir meu Jazz, enquanto você vaga pelo seu quarto podre e fétido, em busca de algo para estancar a agua suja que insite em sair dos seus olhos mentirosos.
Hoje, é seu dia. Mas todos os dias, são meus.

KS 20/07/09

terça-feira, 30 de junho de 2009

UM CASAL NO ÔNIBUS



Hoje, estava eu, tranqüilamente, pegando o ônibus. Paguei o cobrador que riu como bêbado. Sentei no último banco, lá no fundo, com a esperança de não pensar em nada. Inútil. Contei o número de pessoas no veículo: 6 (comigo). Como eu estava de óculos escuros, aliás ótimos para ninguém saber onde seu olhar se encontra, foi mais fácil observar cada ser bizarro.

Primeiro o homem velho á minha frente. Uma cara de pedreiro. Não me pergunte, estou apenas julgando pela aparência. Logo desisti de observar aquela vida patética, bem quase SEM VIDA.

Depois meus olhos me obrigaram a olhar o ser a dois bancos de distância de mim. Um homem jovem, devia ter uns 26 anos. Feio. Mas não feio de aparência, simplesmente não é algo que me chame a atenção. Foi então que olhei um casalzinho bem de frente para mim. Tão romântico. Beijando-se sem parar. A menina tinha um nariz de tucano e o garoto parecia um típico vilerinho arrumado. Enfim, se mereciam.

Confesso que aquele casal me deu uma inveja, tão felizes no meio de uma tarde ensolarada, rumo ao centro. Mas esse foi um sentimento passageiro, como tantos outros. Concentrei-me neles. Não sei porque, suas caras e bocas me prenderam o olhar (por debaixo dos óculos escuros).

Primeiro pareciam estar discutindo algo como o que iriam fazer á noite. A menina disse que não sabia e ele acrescentou que a tucaninha deveria se decidir até 10 horas, pensou por um momento, não! Às 9h é melhor. Ela resmungou, manhosinha (típico de casalzinho grudento). Começaram a se lamber de novo. Desviei o olhar, sentia que o sentimento repentino estava voltando. Olhei para a janela, e quando meus olhos voltaram-se para o meu estranho ponto de observação, lá estava a menina tirando algo parecido com pano preto de dentro de uma sacolinha. Por milésimos de segundo tive dúvida, que foi saciada assim que ela abriu o ‘paninho”. Era um conjunto de lingerie (calcinha e sutiã) preta. Que diabos a menina está abrindo isso dentro de um ônibus?????? Sendo que todos os passageiros tinham sua visão livre para observa-los. Quase dei risada, mas resolvi prestar atenção nas palavras de novo.

ELA: Amor, o que achou? (empolgação)

ELE: Hum. ( “tô nem aí”)

ELA: não gostou? (decepção)

ELE: gostei! (olhar desviado)
ELA: hum. (pensando ser a pior idéia do mundo)

Guardou imediatamente a lingerie na sacola, se recostou nos braços dele e olhou por longos segundo para a janela, que naquele momento mostravam um céu azul raro em Curitiba, e algumas árvores correndo. Fixei meu olhar em seus olhos, e por alguns segundos, senti dó. Outro sentimento passageiro, pois logo depois o garoto pois a mão no queixo dela e começaram a se lamber e se mordiscar de novo. Parei de olhar. Aquilo me cansou, e além do mais o nosso destino tinha nos alcançado.

KS (18/12/2008)