terça-feira, 19 de maio de 2009

Da alma!



Ela estava segurando as lágrimas. Mas elas teimavam em cair, uma a uma. Delatando assim a tristeza que sorria vitoriosa em seu coração. Sua cabeça doía, mas seus pés não paravam de andar. Suas pernas não agüentavam mais. Estava longe de casa. Não se sentia em casa, na verdade. Saiu com a roupa do corpo. Não! Não estava fugindo. Apenas saiu por que o ar se tornara tão denso que a respiração já não era possível.

            Há dias que andava desentendendo-se com os pais. Não sabia o que era, mas queria apenas sentir-se ao menos um pouco livre. Não se sentia madura para ser dona de si, mas se sentia madura para no mínimo merecer o respeito deles. Eles. Tão autoconfiantes, achando-se os donos da razão. Pensam que só por terem mais experiência podem julgar-nos, ou então nos dizer que somos errados. São tão crianças quanto nós. Talvez mereçam mais nossa compreensão do que nós a deles. Mas, aqui me deparo com algo que jamais entendi. Eles já foram nós, não seria assim mais fácil?

            Não quero perder o foco. Volto a falar de Renata. Sim, nossa personagem se chama Renata. Não diria que é uma garota doce, tampouco meiga ou cheia de virtudes. Não! Pelo contrário. Não tinha um talento específico. Mas uma coisa era verdade, ela havia aprendido que nada jamais poderia ser comparado a um abraço de mãe. Esse assunto a machucava muito. Não podia assistir filmes em que o tema fosse relacionamento pais e filhos, ou então família. Seu coração não agüentava, e a tristeza voltava a sorrir. Talvez por se espelhar ali.

Ás vezes se julgava a dona da razão, como qualquer outro adolescente. Mas dias e noites pensava que ela era a errada, ela só queria uma conversa, um tempo dedicado a ela. Talvez carência, talvez manha. Nunca saberemos. Esses sentimentos sempre estiveram tão encravados em seu coração que nem minha onisciência poderia descobrir.

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-                     Você pensa que a vida é fácil assim? Só comendo e dormindo?

Renata continuava fitando-a incansavelmente. Olhos murchos, olhos de preguiça, de inadagação.

-                     Hum. Já arrumo.  - Voz falhada.

-                     Você só me dá desgosto. Não percebe o que faz comigo? – apressou-se a mãe, com a voz alterada e levemente falhada devido á garganta de fumante.

-                     Você também não me dá só alegria. – respondeu Renata, sem alterar a voz. Apenas com firmeza em cada palavra. Era a primeira vez que desafiava a mãe.

-                     E não me responda! Há muito venho querendo te dar um corretivo... – levantou a mão na altura do rosto da filha.

-                     Isso faça. Desconte em mim seus problemas, quando você sabe que a maior culpa aqui é tua! Você se esconde atrás de cada acusação que me joga. Desculpa o que vou falar. Mas tudo que sei sobre lidar com as pessoas, aprendi com você. E acredite não queria ser assim. 

 

O tapa não demorou. Mão no rosto. Sangue quente fervilhando em suas bochechas. Já não podia conter as lágrimas. Caíram de vez. Olhou fundo nos olhos da mãe e bateu a porta de casa.

Assim, encontrava-se ela na rua, eu me aproximei e observei. Ela não teria mais muito tempo, logo teria de leva-la comigo. Deixei-a aproveitar seus últimos minutos de lágrimas, de tristeza e de qualquer felicidade que pudesse ainda estar em seu coração.

Andando na rua, ela mal percebia movimento e trânsito de carros. Chegara o meu momento de agir, conclui. Ela atravessou a rua sem olhar, como que por instinto olhou para direita e avistou um carro. Peugeot vermelho, 207. Bonito. A moça de dentro mais linda ainda. Estava se maquiando no espelho retrovisor. Não viu que precisava parar antes de encostar no corpo já mole de Renata.

Viu! Tarde de mais. Renata estava no chão, sangue saía de sua cabeça. Traumatismo craniano definiram os médicos. Porém, eu defini: morreu da alma.

 

(KS) 19/05/2009

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