terça-feira, 30 de junho de 2009

UM CASAL NO ÔNIBUS



Hoje, estava eu, tranqüilamente, pegando o ônibus. Paguei o cobrador que riu como bêbado. Sentei no último banco, lá no fundo, com a esperança de não pensar em nada. Inútil. Contei o número de pessoas no veículo: 6 (comigo). Como eu estava de óculos escuros, aliás ótimos para ninguém saber onde seu olhar se encontra, foi mais fácil observar cada ser bizarro.

Primeiro o homem velho á minha frente. Uma cara de pedreiro. Não me pergunte, estou apenas julgando pela aparência. Logo desisti de observar aquela vida patética, bem quase SEM VIDA.

Depois meus olhos me obrigaram a olhar o ser a dois bancos de distância de mim. Um homem jovem, devia ter uns 26 anos. Feio. Mas não feio de aparência, simplesmente não é algo que me chame a atenção. Foi então que olhei um casalzinho bem de frente para mim. Tão romântico. Beijando-se sem parar. A menina tinha um nariz de tucano e o garoto parecia um típico vilerinho arrumado. Enfim, se mereciam.

Confesso que aquele casal me deu uma inveja, tão felizes no meio de uma tarde ensolarada, rumo ao centro. Mas esse foi um sentimento passageiro, como tantos outros. Concentrei-me neles. Não sei porque, suas caras e bocas me prenderam o olhar (por debaixo dos óculos escuros).

Primeiro pareciam estar discutindo algo como o que iriam fazer á noite. A menina disse que não sabia e ele acrescentou que a tucaninha deveria se decidir até 10 horas, pensou por um momento, não! Às 9h é melhor. Ela resmungou, manhosinha (típico de casalzinho grudento). Começaram a se lamber de novo. Desviei o olhar, sentia que o sentimento repentino estava voltando. Olhei para a janela, e quando meus olhos voltaram-se para o meu estranho ponto de observação, lá estava a menina tirando algo parecido com pano preto de dentro de uma sacolinha. Por milésimos de segundo tive dúvida, que foi saciada assim que ela abriu o ‘paninho”. Era um conjunto de lingerie (calcinha e sutiã) preta. Que diabos a menina está abrindo isso dentro de um ônibus?????? Sendo que todos os passageiros tinham sua visão livre para observa-los. Quase dei risada, mas resolvi prestar atenção nas palavras de novo.

ELA: Amor, o que achou? (empolgação)

ELE: Hum. ( “tô nem aí”)

ELA: não gostou? (decepção)

ELE: gostei! (olhar desviado)
ELA: hum. (pensando ser a pior idéia do mundo)

Guardou imediatamente a lingerie na sacola, se recostou nos braços dele e olhou por longos segundo para a janela, que naquele momento mostravam um céu azul raro em Curitiba, e algumas árvores correndo. Fixei meu olhar em seus olhos, e por alguns segundos, senti dó. Outro sentimento passageiro, pois logo depois o garoto pois a mão no queixo dela e começaram a se lamber e se mordiscar de novo. Parei de olhar. Aquilo me cansou, e além do mais o nosso destino tinha nos alcançado.

KS (18/12/2008)

Ela.


Ele. Aquele garoto. Que cara de safado! Quando o olhei de primeira, nem percebi o fogo que escondia. Uma cara de quem é idiota, e um molenga na cama. Ah, que bela enganação.

Agora, nessa cama, suada. Vejo que foi a melhor coisa que me apareceu nos últimos meses. Garoto que na cama se revela homem. Em pensar que conheci numa mesa de bar de esquina. Nunca imaginei que aquele moço cabisbaixo me daria tanto prazer e me faria gozar duas ou três vezes, como nenhum outro.

Fui no bar naquele dia, apenas procurando me afogar num copo de 51. Ah! Por que diabos sentei no balcão? Sempre sentava-me á mesa. Mas me sentia sozinha demais na ocasião. Um banquinho que mal cabia meu quadril e um balcão de alumínio parecia a melhor companhia. Pedi para alcançar-me o guardanapo. Olhei seus olhos negros como a noite, e apagados com uma vela inútil. Deu um sorriso sem graça e me passou o bendito guardanapo. Ficamos ali por umas 2h. Ás vezes nos olhávamos. As vezes não precisava. Achei uma companhia. Não me perguntava, não me enchia o saco, não mandava em mim. Tinha assim o meu espaço.

Hoje? Bem hoje nos encontramos na esquina da rua XV. Seguimos lado a lado até a pousada, sem uma palavra mencionar. É estranho alguém saber o que te dá prazer e o que te faz mais feliz, mesmo olhando só seus olhos... deve ser isso que chamam de química, ou safadeza, não sei. Tanto faz, não importa.

Resolvemos escolher a Posada de luz amarelada incandescente hoje, meu dinheiro é bastante, mas não posso esbanjar sempre. E além do mais, estamos em uma de inovar o lugar. Peguei a chave, ele me olhou quando estávamos na porta do quarto. Comeu-me pelo olhar. Me senti nua, despida. Despida de roupa e de pudor. Com ele sinto-me livre e solta. Posso ser quem eu quiser. Ninguém me impede.

Pressionou-me contra a porta. Beijou meu pescoço, minha nuca, meu queixo, minha orelha, mordiscando-a. Nunca me beijara na boca. Nem eu sequer pedia isso. Beijo na boca serve para apaixonados, adolescentes, garotos e garotas. Eu queria mais que um simples beijo. E isso ele me dava.

Abriu a porta como se aquele fosse o melhor momento, me apertou contra ele, me jogou na cama. Puxei-o comigo. Ele acabara de rasgar minha blusa. Pouco importa, amanhã compro outra. O prazer que ele me daria alguns momentos depois compensaria. Chupou meus seios. Apesar de velha, ainda tenho um belo corpo. Talvez o quadril mais largo do que gostaria, mas nesse momento nada, absolutamente nada me importa. Domou-me. Hoje estava inspirado. A namoradinha dele deve tê-lo deixado louco antes de me encontrar.

Sei dela, pois já o vi passeando no centro de mãos dadas. Pobre garota. Mal conhece a vida e se acha dona do mundo. Espere ter a minha idade. Ah...

Ele me fez gozar, tão bom hoje. Penso que a cada dia ele se supera, ou eu me entrego mais. Não sei.

Vou continuar me esquivando desse mundo, enquanto posso, aqui. Nesse quarto.

Viro pro lado. Durmo.


(KS) (12/03/08)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Saúvas.

Sinto meu corpo bezuntado em mel. Parece gostoso.
Até você saber que por cima do mel,
existem pequenas saúvas. Comendo minha carne, uma a uma
beliscam minha pele, para que eu sinta uma dor de cada vez.
Para que eu sinta muito bem a dor. Então, uma a uma me corroem.
Então, uma a uma se enche do meu sangue e se delicia com o mel que tenho na superfície da pele.
Mas elas não se contentam apenas com o mel que lhes foi deixado. Não!
Elas vão além, comem a carne por debaixo dele, e comem mais, formando pequenas corrosões.
E como se não bastasse só meus membros, elas sobem pela barriga, dando uma espécie de cócegas, dor
e tortura. Sobem para o rosto. Não consigo exprimir o olho de modo suficiente, uma delas entra na menor abertura que
deixei para espiar. Entra e então, meu olho arde. Ainda consigo ver pelo outro. Elas continuam sem parar.
Meu couro cabeludo nunca esteve tão coberto por cabelos como agora. Pena que não são cabelos. São saúvas.

(KS) 23-06-09

domingo, 21 de junho de 2009

Vontades

Nossa, dá uma vontade de deitar fechar os olhinhos puxadinhos,
ai sorrir e deixar-me embalar por sonhos. Sonhos estes que me fazem sair daqui.
Mesmo que o inevitável despertar aconteça, ao menos viajei.
Fecho os olhos e escurece tudo a minha volta.
Ao tempo que escurece renasce em mim a luz. Aquela, que um dia vi brilhar
no olhar daquele garoto, que hoje só me deixou saudades. Mas é o mesmo que
hoje vejo brilhar no outro garoto. Talvez mais forte. Mas brilha com a mesma duração.
Mesma intensidade, diferentes proporções.

Eu sonhei e sonhei azul
Sonhei azul e branco
E no sonho eu era feliz

Acordei.

Na realidade que eu nasci
E na realidade morrerei.


Wagner Prochno

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Morri ontem


Morri ontem.
Tive a lembrança
da luz se afastando,
pensei renascer de manhã,
mas já estava morta.

Miha carne putreficada,
deixa meu espírito inquieto
e minha vida estaganada

Sem mais sentimentos,
me desmancho no espaço,
e me esfumaço nas nuvens,
e me confundo com estrelas.

Vôo por entre planetas,
pego carona em cometas
e dou adeus...
adeus ás coisas bestas.

(KS) 19/06/09

terça-feira, 16 de junho de 2009

Seu único amor



Te espero
e você nunca chega
te quero
e não me atrevo
as vezes te sinto
ao longe...
se aproximar,
então acordo...
aquele sonho tolo á tona

acordo e descubro a porca realidade
de uma vida medíocre
enquanto sei...
que em algum lugar,
meu amor
você se diverte;
se perverte
e me destrói...

destrói a mim.
seu único conforto
seu único refúgio
seu único amor

para quê?
nada.
nem sabes que existo.
assim não tem culpa.
que vida injusta...
mas mesmo assim.
mesmo sabendo que vou sofrer
mesmo sabendo que desse sentimento
vou morrer
continuo a esperar,
pois dentro de mim
há, mesmo que pequena
a vã esperança de te ver chegar.

KS
21/01/09

Pneumotórax - Manuel Bandeira


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Mais em: http://www.casadobruxo.com.br/poesia/m/pneumo.htm

Profundamente - Manuel Bandeira


Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.




Mais poemas em:

http://www.releituras.com/mbandeira_profundamente.asp

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Soneto IV

Depois do fim
há o novo começo
sempre soube,
isso mereço

De pressa,
apareço
No sol da manhã
resplandeço

A aurora
me revigora
e o mundo me ignora

Quem sabe outrora
Ou quem sabe no fim
Tudo que resta, está dentro de mim.

(KS)
31-05-09

Soneto III

Largue de mim
Largue-me aqui
deixe-me onde estou
deixe-me ser o que restou

Não preciso de suas mentiras
ou fantasias
Chega de ilusões
e falsas alegrias

Deixe-me rastejar
deixe-me sob o luar
Não deixe-me te amar

Acabou,
Cansei
Nada restou.

(KS)
31/05/09

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Soneto II

Deixando fotos no chão,
queria te ter.
Só não quero viver em vão
ou veneno beber

Te deixar
te largar
te abandonar
não quero mais amar

Amar e chorar,
Andei longe
e doeu

Agora, por favor,
deixe-me sentir
aquilo que sou só eu.

(KS)
31/05/09