sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Fazer História.




agora,
me resta fazer história
só me resta...
história esta...
minha e tua
nua e crua
pra sempre nossa
vou compor nossa Bossa

vou deixar nosso pedaço
nossa marca
nossos amassos
vou te embalar, do amor, na nossa barca
vou relembrar os abraços apertados
os beijos demorados
e os no muro escondidos,
proibidos

Vou fazer-te recordar
em minhas lembranças
reconquistar o amor que já é meu
deixar provar aquilo que é teu
só teu...

Recostar a cabeça no travesseiro,
nas almofadas, os cabelos
na pelúcia, os braços
no colchão, os entrelaços

em mim, tua vida...

KS 28/08/09

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Gosto do outono.



Gosto do outono
não porque é frio
mas por faz-se frio com o vento
não poque é úmido
mas por fazer-se úmido pela chuva
que insiste em brotar das nuvens e gotejar dos telhados
não porque gosto de folhas caindo.
mas porque quando elas caem, eu me lembro que faço parte
de toda essa coisa que chamamos vida.
Que como as folhas eu caio,
e como as folhas, eu renasço a cada primavera
Gosto do outono, pois suas cores são únicas
suas folhas avermelhadas me lembram sangue
me lembram amadurecimento
me lembram que ficamos velhos...
e que de certa forma, amadurecer nem sempre é bom.
mas faz parte de um todo.
que precisa do maduro
que precisa do vermelho
que precisa da queda
que precisa do renascer.
e é no outono, que o sol nasce de frente a minha janela
nos dias que as nuvens permitem
e são nesses dias que sou acordada pelo seu raio, ofuscando meu sono.
e por únicas vezes, não acordo de mau-humor...
Gosto do outono não pelas árvores que secam,
mas pelas folhas que caem no chão e acalentam minha queda.

Kika 26/08/09

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Eu sou a mosca que posou em sua sopa (8)

"te jogo fora e pego outra!"

(dedicado á Carolyne)

Uma das flores. Cap 1


Aqui, deitada nesta rede, de frente para o mar. No auge dos meus sessenta anos, consigo olhar para o passado e riscar uma linha do tempo. Então as memórias me banham com saudades. E sinto falta de não ser mais aquela garota de 17 anos, que ainda acreditava em amor pra sempre e nos homens. Mas principalmente, acreditava no melhor que a vida tinha a oferecer. Pena que hoje, já não encontro quase nada daquela garota dentro de mim. Os anos vieram. E trouxeram junto as rugas, a flacidez, o mau-humor, a falta de desejo, a experiência, o desânimo, o reflexo repudiado do espelho, os filhos, os netos, a viuvez, os cabelos brancos, já impossibilitados de serem cobertos por química, a cama vazia, a casa vazia que se enche aos domingos e me trouxe as lembranças de um passado lindo. Um passado de dar inveja a qualquer história de novela das 8. Como tenho saudades. Mas ao mesmo tempo, penso que se tivesse sido eterno, não teria sido tão bom quanto foi.

Vivi um amor bonito, dito impossível de ser conquistado, pensado ser diferente de tudo que a sociedade já vira... E acredite, a opinião das pessoas pode não importar, mas influenciam sua vida, todo tempo.

Me apaixonei por um louco, maluco, esquizofrênico, depressivo, reprimido, débil... Chame do que quiser. De fato o conheci em um manicômio... Mas isso nada quer dizer. Ou quer?

Bem, o fato é que me apaixonei, e jurei que jamais conquistaria o amor dele. Como fui boba. O sentimento foi recíproco. Ah! E depois descobri que ele não era louco, como todos pensavam... Ele era apenas um artista incompreendido, vamos assim dizer.

Agora, me pergunte, vai, eu sei que quer saber. Por que diabos estava no manicômio, então? Simples, misturou-se com seus personagens. Sim, era um escritor. Criava personagens totalmente anormais para a sociedade. Mas inteiramente normais nos livros de Mike.

Mike Connor, era esse seu nome. Inglês? Não, não. Metido a inglês. Sua família tinha o sobrenome, mas era já completamente brasileira. Mike? Ué, para combinar com o Connor. Eu também achei bizarra a escolha. Mas no todo, fica um nome bonito. E para um escritor é fácil de ser decorado.

Mike procurava misturar-se aos seus personagens, para definir melhor o que era ou não anormalidade. Não, não escreveu apenas sobre loucos. Escreveu sobre advogados, médicos, publicitários, coveiros, faxineiras, lavadeiras, porteiros... e assim por diante. E sempre fazia se passar por um. Como não descobriam? Fácil. Ele não gostava de fotos ou câmeras. Fugia de autógrafos ou qualquer evento. Era de fato, estranho.

Famoso? Ah, não. Na verdade um pouco era. Eu o compararia ao Dalton Trevisan, exceto pelo seu humor cáustico e sua fama de vampiro.

Oi? Se Mike fugia das fotos porque era feio? Ah! Longe disso. Não era feio. Era metido e impetuoso. Sua cara petulante, me dava nos nervos. Mas seu cheiro me excitava de um jeito único. O quê? Me achou vulgar? Ah! Vá tomar no cú. Não sou vulgar. Não, longe de ser um velha perturbada, apenas... ah, veja bem ,eu devia ter os hormônios muito aguçados na época. Ninguém pode prever o desejo de uma jovem de 17 anos, ou pode?

Não me julgue leitor (a). Se não tem desejos, só devo pena a você. Se tem, sabe do que falo. Pode compreender porque o cheiro da pele desse cara me deixava tão zonza e perdida.

Mas você ainda deve estar cheio(a) de perguntas. Guarde-as para um próximo encontro. Sinto que preciso fechar os olhos. O horizonte após muito ser contemplado, vira uma espécie de relógio hipnótico, principalmente quando se tem a minha idade.

Beijos, meu querido.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Me disseram certa vez que a vida é como um orgasmo...
começa com desejo
há então a expectativa
o apse
e você por fim vê tudo esvaindo por entre os dedos.

KS 12/08/09

domingo, 9 de agosto de 2009

contando as horas...

estou contando as horas
já não aguento
maldito relógio parou
ele está contra nós
sempre odiei relógios
sempre odeiei ficar com ele a sós
me traz recordações de um tempo passado
e de um presente.
e o futuro, nele não existe,
OU se existe demora

Kika 23/04/09

que cor é o céu?



Que cor é o céu?
Já não sei definir.
Hoje aparentava ser cinza,
e hoje já não lembro que cor era.
Costumava observá-lo e admirá-lo,
acabou o tempo.
Passei a observar o teto do meu quarto.
E novamente acabou meu tempo.
Foi então que percebi que só poderia observar um único teto.
Que seria do meu caixão. Para esse sim eu teria toda a eternidade.


KS- 06-06-09

.



Já não tenho lágrimas pra chorar
Já não tenho pessoas a odiar.
Tenho a mim mesma,
para condenar
por erros meus e escolhas minhas
talvez não erradas e muito menos acertadas.
Mas ecolhas divergentes,
que fazem minha vida tomar rumos opostos
rumos com os quais já não sei lidar.
então volto a questionar:
onde estão as lágrimas?
onde estão as pessoas?
Quem sou eu agora?
Já não sei responder.

06-06-09
KS

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Caroline

Ela observava a fonte, que ficava no meio da praça. A fonte de água agora suja. Aspecto antigo, mas rebuscado. Ela ficou paralisada ali, debruçada sobre o para-peito de ferro, com a tinta lascada. Ficou debruçada, mesmo aquilo gelando sua barriga por cima da camiseta fina que vestia. Seus olhos imóveis. Seu piscar interrupto e silencioso. Sua respiração quase inexistente. A água suja captou seu olhar de um modo único. Como há muito, nada captava sua atenção dessa forma. Bom, pelo menos não depois de ter visto a vida de seu namorado esvair-se na sua frente. Foi algo brutal demais para esta pequena.

Caroline o nome dela. Como tantas outras carolines no mundo. E aqui menciono “caroline” com letra minúscula, transformando-a em substantivo comum. Porque é isso que ela é. Uma pessoa comum, como tantas carolines que passam, passaram ou permanecem na minha vida. Algumas com Y outras com K, outras ainda com “n”, “l” ou qualquer outra letra a mais. Para mim, todas iguais. E todas tão diferentes.

Calma! Não posso perder o foco. Falava de um certa Caroline, de um certo cadáver, de uma certa fonte, de uma certa vida, de um certo momento.

Ah sim! O cadáver. O cadáver do namorado de Caroline. E nem devo mencionar seu nome. Não. Aqui ele é só: Namorado de Caroline. Bonito era o rapaz. Morreu num racha. Filho da puta, ainda bem que Caroline pediu para sair do carro. Senão o destino teria se igualado para ela. Pera aí! Ainda bem? Ainda bem que ela saiu? Mil vezes ela tivesse ficado com seu namorado até o fim. Era o que se passava na cabeça da pequena Caroline. Ela preferia ter ido junto, do que ver seu amor simplesmente fugindo por entre seus dedos. Preferia ter ido, do que agora estar numa fonte de água suja. Pensando sei lá Deus no que. Mas com certeza não era algo bom de se pensar. Ou era. Depende do ponto de vista.

Os olhos dela percorreram toda borda da fonte. Em seguida retomou o ohar ao para-peito. Aí, ficou a admirar as belas curvas das estátuas femininas. Riu-se ao perceber um cano saindo do meio das dobras do glúteo de uma delas. Achou aquilo engraçado e confuso. Olhou para os buracos além das estátuas. Buracos aqueles deveriam jorrar água nova. Mas que estavam secos.

Retomou a olhar a água. Suja, fétida. Riu-se de novo quando lembrou, certa vez, ter visto um bêbado pegar água daquela mesma fonte para beber. Mas esse riso, não foi riso. Foi choro. Um choro pela vida miserável que o bêbado devia estar levando na época. De certo estaria tão deseperado quanto ela. Ela, que repetidas vezes olhava para o caminho de pedras que levava a uma espécie de portal da praça. O mesmo portal por onde viu o seu namorado passar. Passar tantas vezes... Eles se encontravam ali com frequência. Hoje, bem hoje ela insistia. Queria pensar que tudo aquilo que vivera desde o último dia 1º, tinha sido apenas um pesadelo. Um pesadelo longo e interminável. Olhou. Olhou. Olhou. Nada. Seu pescoço já estava dolorido de tanto virar-se. Ela começava a cair na real. De novo.

Foi abordada por um vendedor de chaveiros. Não, obrigada! Por um hippie e seus brincos. Não, Obrigada! Por ex-drogados pedindo auxílio. Não, estou sem dinheiro. Sorriso amarelo.

Todos aqueles. Todos perturbando Caroline. Que desaforo. Não deixavam a pobre observar a água suja da fonte. Mas que merda!

Subitamente, ela voltou seu olhar esperançoso para o caminho de pedras, do portal da praça. Fora sua última chance. Ele morrera. Não estava mais aqui. Nem pudera. Seu corpo fora carbonizado no acidente. O carro do Namorado de Caroline pegou fogo assim que colidiu com o outro. Mal deu para pegar as cinzas para o funeral.

Ela lembrou-se disso. Riu dela mesma. Riu da situação que se encontrava. Mas não era um riso de alegria. Mas um riso que queria chorar. Um riso que tinha por dentro, facadas no peito. O mesmo riso que a morte dá quando vem coletar as almas humanas.

Caroline colocou a mão no bolso da calça. Tirou umas pílulas branquinhas. LSD. Conseguira com sei lá quem, sei lá onde. Apenas conseguiu. Engoliu-as a seco. Alguns poucos minutos...

O efeito começou. Ela começou a correr leve e saltitante ao redor da fote. Falava comas estátuas, que pareciam responder. Fez piada com a estátua do cano na bunda. Chegou perto dos canos que deviam jorrar água e ... puuuuuuuuufff. O cano jorrou água.

Todas as outras saídas de água se abriram em seqüência. Jorrava água limpa. A sujeira ia decantando ao fundo da fonte. As estátuas, agora molhadas, estavam coloridas para Caroline. Mesmo sendo feitas de pedra.

Caroline se viu num sonho. Ela queria aquela água. A mesma que o bêbado procurou. A mesma que via pessoas estranhas todos os dias a olha-la. Caroline despiu-se. E foi jogando uma peça de roupa pra cada lado. As pessoas passavam, olhavam. Algumas riam. Outras achavam um absurdo. Mas Caroline não se importava. Pois como disse certa vez João Virgovino: “Eu não posso existir para bilhões de pessoas, é muita gente. Existo apenas para as que são importantes pra mim”. Assim ela não existia para nenhuma daquelas pessoas. E nenhuma delas existia para Caroline.

Era só a Caroline e a água que jorrava, límpida e gélida. Só a água... água... só... água... límpida... só... água...

Ela subiu no para-peito, ainda nua. E se atirou para dentro da fonte. Seu corpo deitou no chão azul claro da fonte. Toda água sobre ela. Mas Caroline já não existia. Era a água que jorrava. Caroline se esvaiu, como num sonho.

As pessoas paravam e olhavam. Logo apareceram policiais e para-médicos. Mas Caroline já tinha ido. Tarde demais.

KS 05-08-09

terça-feira, 4 de agosto de 2009

órgãos desfalecidos

Ainda há pouco tive vontade de vomitar tudo. Tudo do nada que eu comi hoje. Parecia que vomitaria todo o esôfago seguido do estômago. Ele ficou embrulhado. A dor não parava. Subia e descia. Senti até no útero. Como se todos os meus órgão quisessem escapar. Queria por alguns segundos que eles escapassem. Me faltou ar, aí pareceu que o pulmão havia se desfeito. Chorei. Esperneei no chão. Eles lutavam dentro de mim. Eu queria que eles explodissem, e que eu fosse junto. Só isso que eu pedi. Uma prece não concedida, como tantas outras. Apenas, joguei de joelhos ao chão. E o ar faltou novamente. Pronto! Foi o outro pulmão. Vã esperança. Estavam todos lá desgraçados. Vendo a minha queda. Nem seque pra me ajudar? Que tipo de partes de mim vocês são? Bando de carnes com veias inúteis. Pensam que preciso de vocês? Não preciso. Não se quero morrer. Apenas, me deixem febril. Merda, nem isso arranquei. Senti a testa quente. Coloquei o termômetro. 36.2 ºC. Merda tripla. Nem doente sou capaz de ficar. Órgãos in úteis, né pra ficarem infeccionados vocês servem! Só pra fazer doer. E isso já me basta um.


.

È como se eu quisesse sair do velho. Como se o novo me chamasse, sem nem mesmo eu conhecer. É de tarde, e o sol de inverno que agora adormece, me faz lembrar o quanto eu preciso estar longe de tudo que me faz lembrar de você.

Olho para o chão e vejo a poeira dos pés que já não entram. Poeira da alma que agora eu tenho, e não vejo nem sequer lembranças dos dias bons. Olho a lista de afazeres e me enterro no travesseiro. Não tenho vontade ou sequer prazer em nada disso. Me enterro nos cobertores pesados. Nos cobertores que quero chamar de terra. Pois me sinto morta, como em um caixão. A cabeça dói, então me dá a certeza que infelizmente ainda estou viva. Logo meu estômago que já há tempos não reclamava, hoje sente fome. Não adianta tentar comer. Comer me lembra ser humana, e é tudo que eu menos sou agora. Deixe-me aqui. Leve-me para os jardins floridos e deixe-me morrer. Quero apenas sair do velho. Tire minha alma e recorra ás minhas mãos. Segure-as. Só por isso ainda dependo de você...

KS 04/08/09

domingo, 2 de agosto de 2009

Porque eu sou a primeira e a última Eu sou a venerada e a desprezada Eu sou a
prostituta e a santa Eu sou a esposa e a virgem Eu sou a mãe e a filha Eu sou os braços de
minha mãe Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos Eu sou a bem-casada e a solteira
Eu sou a que dá à luz e a que jamais procriou Eu sou a consolação das dores do parto Eu
sou a esposa e o esposo E foi meu homem quem me criou Eu sou a mãe do meu pai Sou a
irmã de meu marido E ele é o meu filho rejeitado Respeitem- me sempre Porque eu sou a
escandalosa e a magnífica
Hino a Ísis, século III ou IV (?), descoberto em Nag Hammadi


(retirado de Onze Minutos - Paulo Coelho)

Pedra

A pedra de mil pontas foi feita
dura a rocha, longe de ser perfeita
cinza a pedra de mil pontas já quebradas
se acaba quando pelo vento é tocada
se acaba quando pela água é molhada
se acaba quando na areia de econtra
mesmo pedra quando tocada desmonta.
Mesmo pedra, é fraca é frágil.
Não é pedra.
Não é ágil.

KS 2/08/09