quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Caroline

Ela observava a fonte, que ficava no meio da praça. A fonte de água agora suja. Aspecto antigo, mas rebuscado. Ela ficou paralisada ali, debruçada sobre o para-peito de ferro, com a tinta lascada. Ficou debruçada, mesmo aquilo gelando sua barriga por cima da camiseta fina que vestia. Seus olhos imóveis. Seu piscar interrupto e silencioso. Sua respiração quase inexistente. A água suja captou seu olhar de um modo único. Como há muito, nada captava sua atenção dessa forma. Bom, pelo menos não depois de ter visto a vida de seu namorado esvair-se na sua frente. Foi algo brutal demais para esta pequena.

Caroline o nome dela. Como tantas outras carolines no mundo. E aqui menciono “caroline” com letra minúscula, transformando-a em substantivo comum. Porque é isso que ela é. Uma pessoa comum, como tantas carolines que passam, passaram ou permanecem na minha vida. Algumas com Y outras com K, outras ainda com “n”, “l” ou qualquer outra letra a mais. Para mim, todas iguais. E todas tão diferentes.

Calma! Não posso perder o foco. Falava de um certa Caroline, de um certo cadáver, de uma certa fonte, de uma certa vida, de um certo momento.

Ah sim! O cadáver. O cadáver do namorado de Caroline. E nem devo mencionar seu nome. Não. Aqui ele é só: Namorado de Caroline. Bonito era o rapaz. Morreu num racha. Filho da puta, ainda bem que Caroline pediu para sair do carro. Senão o destino teria se igualado para ela. Pera aí! Ainda bem? Ainda bem que ela saiu? Mil vezes ela tivesse ficado com seu namorado até o fim. Era o que se passava na cabeça da pequena Caroline. Ela preferia ter ido junto, do que ver seu amor simplesmente fugindo por entre seus dedos. Preferia ter ido, do que agora estar numa fonte de água suja. Pensando sei lá Deus no que. Mas com certeza não era algo bom de se pensar. Ou era. Depende do ponto de vista.

Os olhos dela percorreram toda borda da fonte. Em seguida retomou o ohar ao para-peito. Aí, ficou a admirar as belas curvas das estátuas femininas. Riu-se ao perceber um cano saindo do meio das dobras do glúteo de uma delas. Achou aquilo engraçado e confuso. Olhou para os buracos além das estátuas. Buracos aqueles deveriam jorrar água nova. Mas que estavam secos.

Retomou a olhar a água. Suja, fétida. Riu-se de novo quando lembrou, certa vez, ter visto um bêbado pegar água daquela mesma fonte para beber. Mas esse riso, não foi riso. Foi choro. Um choro pela vida miserável que o bêbado devia estar levando na época. De certo estaria tão deseperado quanto ela. Ela, que repetidas vezes olhava para o caminho de pedras que levava a uma espécie de portal da praça. O mesmo portal por onde viu o seu namorado passar. Passar tantas vezes... Eles se encontravam ali com frequência. Hoje, bem hoje ela insistia. Queria pensar que tudo aquilo que vivera desde o último dia 1º, tinha sido apenas um pesadelo. Um pesadelo longo e interminável. Olhou. Olhou. Olhou. Nada. Seu pescoço já estava dolorido de tanto virar-se. Ela começava a cair na real. De novo.

Foi abordada por um vendedor de chaveiros. Não, obrigada! Por um hippie e seus brincos. Não, Obrigada! Por ex-drogados pedindo auxílio. Não, estou sem dinheiro. Sorriso amarelo.

Todos aqueles. Todos perturbando Caroline. Que desaforo. Não deixavam a pobre observar a água suja da fonte. Mas que merda!

Subitamente, ela voltou seu olhar esperançoso para o caminho de pedras, do portal da praça. Fora sua última chance. Ele morrera. Não estava mais aqui. Nem pudera. Seu corpo fora carbonizado no acidente. O carro do Namorado de Caroline pegou fogo assim que colidiu com o outro. Mal deu para pegar as cinzas para o funeral.

Ela lembrou-se disso. Riu dela mesma. Riu da situação que se encontrava. Mas não era um riso de alegria. Mas um riso que queria chorar. Um riso que tinha por dentro, facadas no peito. O mesmo riso que a morte dá quando vem coletar as almas humanas.

Caroline colocou a mão no bolso da calça. Tirou umas pílulas branquinhas. LSD. Conseguira com sei lá quem, sei lá onde. Apenas conseguiu. Engoliu-as a seco. Alguns poucos minutos...

O efeito começou. Ela começou a correr leve e saltitante ao redor da fote. Falava comas estátuas, que pareciam responder. Fez piada com a estátua do cano na bunda. Chegou perto dos canos que deviam jorrar água e ... puuuuuuuuufff. O cano jorrou água.

Todas as outras saídas de água se abriram em seqüência. Jorrava água limpa. A sujeira ia decantando ao fundo da fonte. As estátuas, agora molhadas, estavam coloridas para Caroline. Mesmo sendo feitas de pedra.

Caroline se viu num sonho. Ela queria aquela água. A mesma que o bêbado procurou. A mesma que via pessoas estranhas todos os dias a olha-la. Caroline despiu-se. E foi jogando uma peça de roupa pra cada lado. As pessoas passavam, olhavam. Algumas riam. Outras achavam um absurdo. Mas Caroline não se importava. Pois como disse certa vez João Virgovino: “Eu não posso existir para bilhões de pessoas, é muita gente. Existo apenas para as que são importantes pra mim”. Assim ela não existia para nenhuma daquelas pessoas. E nenhuma delas existia para Caroline.

Era só a Caroline e a água que jorrava, límpida e gélida. Só a água... água... só... água... límpida... só... água...

Ela subiu no para-peito, ainda nua. E se atirou para dentro da fonte. Seu corpo deitou no chão azul claro da fonte. Toda água sobre ela. Mas Caroline já não existia. Era a água que jorrava. Caroline se esvaiu, como num sonho.

As pessoas paravam e olhavam. Logo apareceram policiais e para-médicos. Mas Caroline já tinha ido. Tarde demais.

KS 05-08-09

6 comentários:

caroline disse...

Aquele mistério
Aquela história
Aquela sequencia
Tudo na imaginação
e depois a ação
Parabéns amiga
Super Adorei!!!
Ficou muito Bom
Beijos

Tesão disse...

Tadinhaaaa

Que namorado irresponsável!

Kika disse...

João Virgovino citado!!!! uhuL

Anônimo disse...

como sempre me fez entrar na estória!
e sentir os sentimentos do personagem!
Mal posso esperar pelo próximo!!

carolyne disse...

KIKA
ADOREI o texto, amiga escriora! :D
Nossa, suuper bom o negocio da água que uma hora ta seca e quando jorra acaba afogando ela. Viagei aqui.
Muito bom

beijos linda!

Anônimo disse...

quem é joao virgorvino