quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Uma das flores. Cap 1


Aqui, deitada nesta rede, de frente para o mar. No auge dos meus sessenta anos, consigo olhar para o passado e riscar uma linha do tempo. Então as memórias me banham com saudades. E sinto falta de não ser mais aquela garota de 17 anos, que ainda acreditava em amor pra sempre e nos homens. Mas principalmente, acreditava no melhor que a vida tinha a oferecer. Pena que hoje, já não encontro quase nada daquela garota dentro de mim. Os anos vieram. E trouxeram junto as rugas, a flacidez, o mau-humor, a falta de desejo, a experiência, o desânimo, o reflexo repudiado do espelho, os filhos, os netos, a viuvez, os cabelos brancos, já impossibilitados de serem cobertos por química, a cama vazia, a casa vazia que se enche aos domingos e me trouxe as lembranças de um passado lindo. Um passado de dar inveja a qualquer história de novela das 8. Como tenho saudades. Mas ao mesmo tempo, penso que se tivesse sido eterno, não teria sido tão bom quanto foi.

Vivi um amor bonito, dito impossível de ser conquistado, pensado ser diferente de tudo que a sociedade já vira... E acredite, a opinião das pessoas pode não importar, mas influenciam sua vida, todo tempo.

Me apaixonei por um louco, maluco, esquizofrênico, depressivo, reprimido, débil... Chame do que quiser. De fato o conheci em um manicômio... Mas isso nada quer dizer. Ou quer?

Bem, o fato é que me apaixonei, e jurei que jamais conquistaria o amor dele. Como fui boba. O sentimento foi recíproco. Ah! E depois descobri que ele não era louco, como todos pensavam... Ele era apenas um artista incompreendido, vamos assim dizer.

Agora, me pergunte, vai, eu sei que quer saber. Por que diabos estava no manicômio, então? Simples, misturou-se com seus personagens. Sim, era um escritor. Criava personagens totalmente anormais para a sociedade. Mas inteiramente normais nos livros de Mike.

Mike Connor, era esse seu nome. Inglês? Não, não. Metido a inglês. Sua família tinha o sobrenome, mas era já completamente brasileira. Mike? Ué, para combinar com o Connor. Eu também achei bizarra a escolha. Mas no todo, fica um nome bonito. E para um escritor é fácil de ser decorado.

Mike procurava misturar-se aos seus personagens, para definir melhor o que era ou não anormalidade. Não, não escreveu apenas sobre loucos. Escreveu sobre advogados, médicos, publicitários, coveiros, faxineiras, lavadeiras, porteiros... e assim por diante. E sempre fazia se passar por um. Como não descobriam? Fácil. Ele não gostava de fotos ou câmeras. Fugia de autógrafos ou qualquer evento. Era de fato, estranho.

Famoso? Ah, não. Na verdade um pouco era. Eu o compararia ao Dalton Trevisan, exceto pelo seu humor cáustico e sua fama de vampiro.

Oi? Se Mike fugia das fotos porque era feio? Ah! Longe disso. Não era feio. Era metido e impetuoso. Sua cara petulante, me dava nos nervos. Mas seu cheiro me excitava de um jeito único. O quê? Me achou vulgar? Ah! Vá tomar no cú. Não sou vulgar. Não, longe de ser um velha perturbada, apenas... ah, veja bem ,eu devia ter os hormônios muito aguçados na época. Ninguém pode prever o desejo de uma jovem de 17 anos, ou pode?

Não me julgue leitor (a). Se não tem desejos, só devo pena a você. Se tem, sabe do que falo. Pode compreender porque o cheiro da pele desse cara me deixava tão zonza e perdida.

Mas você ainda deve estar cheio(a) de perguntas. Guarde-as para um próximo encontro. Sinto que preciso fechar os olhos. O horizonte após muito ser contemplado, vira uma espécie de relógio hipnótico, principalmente quando se tem a minha idade.

Beijos, meu querido.

Nenhum comentário: