domingo, 27 de setembro de 2009

Era ela.

Entrou em casa,
tirou sua roupa, sua asa
tirou sua angelical feição
então, estremeceu seu coração.
Andando, voando;
No quarto chegou
Na cama se deitou
Nos sonhos entrou

Nos sonhos dela.
Junto dela
ali, a vida se tornava bela,
vida aquela
que ninguém jamais quisera.
Mas dele era.

Nos sonhos dela,
era ele o deus e o amor
era dele todo, da face o rubor
Seria ele, tudo que queria ela?
Ou seria ela, tudo que ele certa vez pedira e quisera?
Já não sabia.
Era pura sinestesia.
Aquela mulher,
aquele cheiro;
Era ela.
Sem dúvida sua dona.
Sem dúvida mandona,
sem dúvida apaixonado.
Entrou no sonho dela;
E jamais saiu decepcionado.

(KS) 26/09/09

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 8

Velha como estou, quando me lembro do meu passado, dos dias depressivos, da internação na clínica psiquiátrica aos meus 17 anos, do rapaz de olhos azuis, sinto um aperto no peito e um nó na garganta. É como se me enforcassem com uma rede de lembranças e me afogassem na minha própria saudade.

Acordei cansada de estar ali, só por estar. O soldado de branco me avisou que eu ia ter visita de um psiquiatra hoje. Tudo bem, né. Nem escolha tenho. Assim pelo menos, tenho a chance de ver caras novas nesse lugar intediante. O enfermeiro veio me acordar e me fez engolir 2 comprimidos. Hoje não teve injeção. Engraçado, mas não reclamei, nem por um segundo. Tomei meu banho, e vesti de novo a roupa da bunda de fora. Hoje, por medo de alguém normal ver minha bunda, amarrei de modo mais preso a camisola. Assim, não parecia quase nada. Como não tenho espelho ou olhos nas costas, ou braços esticáveis para trás, primeiro amarrei as cordinhas, e só depois vesti a camisola pela cabeça. Ótimo. Estou desenvolvendo técnicas não suicidas.

Vi a porta se mexer, tinha acabado de pentear meus cabelos, depois de muito tempo. Prendi-os com algo qualquer que achei na pia do banheiro. Ah, não contei. Meu quarto branco e sem graça, tinha um banheiro próprio, o que julgo ser normal em clínicas, mas achei interessante ressaltar. Enfim, espiei para fora do banheiro e lá estava um homem velho, com bigodes brancos e rosto cansado. Mas seu semblante era convidativo. De fato, fui com a cara dele.

- Vejo que penteou os cabelos hoje. – falou o velho ao vento, enquanto olhava sua prancheta com uma folha que devia ser minha ficha. – como se sente?

- Bem. – fui curta e direta. Meu rosto estava apático, mas creio que minha aparência melhorara de uns dias pra cá. De certa forma as sopas são bons hidratantes. Ou não. Vai saber. Não entendo de biologia ou qualquer coisa sobre substâncias e reações.

- Já fez contato com algum interno? – ele insistiu para que eu falasse. Mas ainda era difícil a formulação de frases.

- Não. – curta e grossa de novo. Esse velho parecia legal, mas não sabia cativar minha conversa.

- Tem tomado os remédios? – disse ele dessa vez dando um meio sorriso e olhando para meu rosto.

- Sim. – o que ele esperava? Empurravam essas merdas goela abaixo? Como eu teria escolha de não tomar?

- Por favor, sente aqui. – fez apontando a cama com a caneta esfereográfica, azul, Bic da sua mão direita. Ele era destro. Odeio destros. São normais demais. Odeio ter nascido destra. Achei mais uma razão para me matar: não ser canhota.

Sentei, sabia que ele faria algum tipo de avaliação médica. Abriu minha garganta, tocou as amídalas. Apalpou a barriga. Ouviu meus batimentos, minha respiração. Concluiu com um sorriso, o que me fez suspeitar de que eu estava bem de saúde. Pelo menos da saúde física.

- Você precisa de alguma coisa a mais, queridinha? – o que? Ele me chamou de queridinha? Que médico louco. Preciso mencionar que ele indagou isso com um sorriso Colgate? Pensei em nem repsonder. Mas de fato, senti falta de algo.

- O senhor pode me providenciar papel e caneta? Sinto falta de escrever. – Balbuciei isso de cabeça baixa e mirando qualquer lugar que não fosse os olhos dele.

- Vai tentar enfiar a caneta na garganta? – perguntou ele ironicamente.

- Não, não. Apenas... – suspirei- apenas sinto falta de escrever.

- Ah! Outro Mike Connor, fêmea. – falou ele com sorriso sarcástico, de modo meio baixo, mas meus ouvidos puderam escutar. Conitnuou - Providencio isso. Mas fique sabendo que papel e caneta são privilégio de poucos aqui. Cuide bem o que vai fazer senhorita. – Disse isso, virou as costas e bateu a porta de leve.

Pronto. Eu ia poder voltar a escrever. Será que minha mãos ainda me obedeceriam? Será que as rimas ainda teriam vida na minha mente? Será que eu conseguiria escrever algo? E... Quem é Mike Connor?

Uma das flores. Cap 7

-- Você acha que pode voar ou algo assim? – perguntou-me o dono daqueles olhos azuis que eu poderia jurar que foram roubados do azul do céu de inverno. Sua cara interrogativa era bizarra, mas não menos bonita.

Atordoada, não o respondi. Me entreti com os fiapos de sua barba mal-feita. Com os dentes alinhados e perfeitos, com os olhos arregalados e assustados, mas tampouco inocentes ou inseguros. Seu perfume também me envolveu. Não era uma colônia francesa ou algo do tipo, era sua pele. Exalava um cheiro de travesseiro recém lavado e sabonete. E um cheiro a mais, que não sei explicar daonde veio.

Estava boquiaberta. O que será que ele estaria pensando? Estava me olhando de um jeito curioso, como se eu fosse alguma espécie nova de macaco, ou sei lá. Ele me soltou no chão. Seus olhos azuis continuaram a me hipnotizar. Por isso não reparei em seus cabelos pretos, lisos e desordenados, na sua pele branquinha como gelo, nos seus óculos redondinhos, no estilo daquele bruxo: Harry Potter, e nem nas orelhas redondinhas, nem no pescoço largo e definido, muito menos na sua boca de lábios finos e sorriso desenhado. E tampouco na sua roupa de bunda de fora.

Ele não parecia nenhum dos pacientes que eu havia conhecido até agora. O que estaria fazendo ali? Não praticava minha fala há muito, então não consegui organizar frases para responder a simples pergunta dele.

Após passar 5 segundos do transe hipnótico, voltei o olhar á grama verde e bem cuidada embaixo dos meus pés. Lembrei do barulho, que eu continuava a escutar, e lembrei que devia ser coisa da imaginação, pois havia ali árvores, e não água.

O homem se afastou de mim. Foi então que percebi. Ele aparentava uns 30 anos com os óculos. Tinha um corpo razoavelmente normal. Nem gordo nem magro. Mas era dono de um porte muito elegante. Olhou de volta para o meio do jardim, onde agora se encontravam alguns pacientes em volta do aparelho de som e outros mexendo com suas próprias coisas. Ele voltou os olhos a mim. Ergueu a sobrancelha, abriu a boca. Mas não falou. Sorriu cordialmente. E virou as costas em direção ao jardim, após exalar fundo o ar de seu pulmão. Foi, deixando sua bunda a mostra.

Uma bunda que eu já tinha visto, e tinha achado bonita, nesse lugar onde não se tem muita coisa a escolher. Agora, podendo observa-la mais de perto, e associando a bunda ao rosto. Conclui: ele era realmente encantador. Pena que fugiu de mim.

Já tinha me conformado que tinha perdido uma bela chance de iniciação de um diálogo, quando ele virou-se a uns metros de distância e com ar de indagação de novo, e falou como quem fala ao vento:

- O que você procura fica do outro lado do jardim.

Agora sim, virou-se e sumiu entre os arbustos do jardim.

Meus pensamentos não eram concretos. Fugiam antes de eu poder completá-los. Quem era esse anjo que me protegeu da queda? Como ele sabia o que eu procurava? Como ele se acha no direito de me virar as costas? Por que não o vi antes? Quem ele pensa que é com aqueles óculos, e com aquela postura? Ele acha certo ficar por aí mostrando aquele fenômeno chamado bunda? Ta, nesse ponto me arrependi. Afinal, eu também estava com a bunda de fora. E se ele como eu também repara nas bundas? Nunca mais andarei sossegada por esse lugar.

O jardim ao qual me referi ficava na parte de traz de uma casa enorme, onde funcionava a clínica. A casa tinha janelas de alumínio, tais como as persianas e os bancos do jardim. Mas estes eram pintados de branco, fazendo assim, um contraste com algumas flores que insistiam em nascer nos arbustos e nos canteiros. Do lado do muro onde eu estava, além de trepadeiras, tinham 5 macieiras nessa época do ano sem frutas, e umas árvores que julguei estarem ali só por uma questão paisagista. Mas não importa, eram de bom gosto.

Sentei-me então, em um dos bancos de costas para a mata que eu agora odiava. Continuei a ouvir as ondas. Vezes mais fortes, vezes mais fracas. Lembrei da frase do anjo: “O que você procura fica do outro lado do jardim”. O que ele queria dizer com isso? As ondas estariam lá? Ou ele estava querendo era me ver cair do muro de novo, sem me salvar dessa vez? Cansei de pensar. Me habituei ao comodismo. Seria difícil largar. E mesmo porque, chegara a hora do sol se por e a hora de eu engolir mais sopa com sopa...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 6

Julguei ser imaginação. Mas o barulho me perseguia diariamente. Depois que voltei a ver o sol, passei também a ouvir barulhos de ondas. Água que sobe devido a lua, e se espatifa nela mesma, provocando espumas e causando dor a quem está embaixo, ou prazer a quem está no meio. Será que sou uma onda? Ah, bem que eu poderia ser. Vem e vai numa leveza sobre-humana, sobrenatural. Mas juro que para minha imaginação, o barulho se tornara muito mais real. Real demais. Devia ser efeito dos remédios. Naquela tarde, um dos soldados de branco trouxe um aparelho, que pelo que me recordo é um aparelho de som. Colocou o CD, e deixou ligado no modo “REPEAT” o resto da tarde. Foi bacana. Gosto de sons diferentes, para variar. Sentia-me mais forte depois de um almoço revigorante de sopa com sopa e gelatina de sobremesa. Mas a gelatina é gostosa. Não posso reclamar. Já da sopa, nem quero comentar.

Resolvi! Quero dançar. Desci da minha cadeira com rodas, que me acompanhou nos últimos dias. Minhas pernas bambearam, mas eu fui mais forte que elas. Afinal, quem comanda ainda sou eu. Pelo menos se não da minha via, das minhas pernas ainda sou dona. Tola. Caí. Confiança demais. Segunda chance: um soldado de branco me ajudou, e assim levantei e dei dois passos. Logo ele se afastou. Senti um ventinho na bunda, que afinal estava levemente descoberta. Foi desconfortável, mas ninguém ali jamais repararia. Dei de ombros, e segui. Segui ao ritmo da música, girei e sorri como se tivesse em algum parque, em algum lugar distante dali. Como se eu fosse criança, e o mundo me pertencesse. Ao menos naquele segundo.

O barulho de ondas, o cheiro de areia e a maresia não podiam ser só minha imaginação. O que haveria além dos muros? Aonde eu estava afinal? Comecei a pensar. Quem sabe agora meu neurônios respondessem mais, e as sinapses tivessem ficado mais fortes. È. Quem sabe.

Queria ir além daquele muro branco, e eu queria conseguir. Ou no mínimo tentar ver através dele. Não, não tenho visão Raio-X, mas tenho pernas e braços. E tenho a inteligência que ninguém aqui nesse lugar tem. Ou já teriam visto o que eu queria ver.

Delicadamente desastrosa, agarrei o galho de uma macieira ainda em crescimento, mas forte o suficiente para me agüentar. Escalei por entre o concreto do muro e as cascas da árvore. Me agarrei na trepadeira que insistia em vir para o meu lado do muro. Trepadeira burra, lá fora é melhor. Segurei nela e vi.

Vi a decepção enrubescer o meu rosto de raiva. Não tinham ondas. Tinham árvores e mata além da mata. Notei a areia no chão e a vegetação rasteira sob as copas das árvores, mas não fiz nenhuma associação. A decepção foi tamanha, que meus lábios tremeram de leve e meu semblante empalideceu. Acabei caindo do muro. Caí nos braços de um anjo.

15/09/09 KS

Uma das Flores, Cap 5



Sol. Estrela maior. Estrela brilhante, sol nascente, sol poente. Sol.

Gosto do sol. Deixaram-me longe dele por semanas. Senti falta do seu calor. Da sua luz, da sua força, energia inacabada. Você sabia que a luz do demora oito minutos até chegar a Terra? Você sabia que a Terra é vista azul por causa dos gases que envolvem nossa atmosfera? Você sabia que gases liberam cores? Você sabia que as cores me devolvem a vida, e a vida me tira da sobrevida? Dê-me cores!

Estava eu, muda, apática, telepaticamente comunicativa, vocalmente restrita. Não! Não falem comigo. Quero silêncio, quero paz. Borrachas são feitas do látex da seiva da árvore. Eu sou feita do liquido do útero da mãe. A mesma mãe, cujo liquido vim, me deixou aqui. Sem sol e sem cores. Eu não consigo amá-la. Não agora. Talvez, depois. Talvez daqui cinco minutos. Só cinco.

Revirei os olhos, prendi a mandíbula. Doeu. Saco! Senti um comichão em cima do umbigo. Barulho! Fome. Eu estava com fome. Fome? Não sabia o que era isso nos últimos meses. Talvez eu tenha emagrecido. Ou não. Tanto faz. Não uso mais espelhos. E são os espelhos que me engordam. Assim, estou bem. Obrigada.

Todos eles loucos, todos psicopatas, todos mentalmente incapazes. Eu não. Sou a única sã dentre essas mentes repugnantes. Odeio todos eles com bunda de fora. ..

Ótimo, agora eu estou com a bunda de fora. Quem tirou minha calcinha? Morra seu verme tarado. Ah, é. São enfermeiros.

Gosto de enfermeiros. São homens. São bonitos. Mas só alguns.

Até breve!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 4


Xícara verde em cima da escrivaninha de um computador meio velho. Uma colher dentro. Leite coalhado. No fundo, pó de achocolatado. Tentei desviar o olhar. Impossível. O remédio era forte demais. Aquela xícara era bonita. Tinha umas libélulas pretas desenhadas, pareciam que estavam presas ali. Queriam sair! Mas nem elas podiam, e nem eu podia ajuda-las. Triste fim libélula. Lembrei de um filme. Interessante, algo sobre libélulas, morte, espíritos e destino. Ah! Porque essas pobres almas mortais insistem em achar algo mais? Contentem-se com o já e agora! Porcos imundos. Saukerl!

O pensamento do filme delineou-se de um jeito louco na minha cabeça, assim lembrei de Hamlet. Ah, como adoro Hamlet. Psicótico? É, foi o que o Leão Gay disse. Acredito nele, se quer saber. Foi então que incitei uma discussão sobre como Shakespeare era bom. Falou sobre Complexo de Édipo antes de Freud?!?! Sim, era bom mesmo. Gosto dele. Pena que aqui nesse lugar branco e estofado e úmido e com cheiro de urina, não existam cores. Gosto delas, assim como das poesias. Assim como dos cheiros, e dos homens. Mais dos homens mesmo.

Perdi noção dos dias, e eles perderam noção de mim. Já não sabiam da minha existência. Falo dos dias. Ou talvez dos homens, nesse ponto meu raciocínio se confunde com o que é real e o que é sonho. Eu sonho? Não me lembro. Essa injeção que me aplicam diariamente mata meus neurônios, e minha ânsia por escrever e criar só faz desaparecer. Me sinta inapta a respirar, a andar, a viver. Dois meses alternando entre um quarto branco e pálido e um quarto acolchoado e fedido. Me sinto o próprio Marquês de Sade na sua última e definitiva prisão de pedra. Não, não escrevo com minhas fezes. Não cheguei ao ponto dele. Ainda.

Após dois meses de loucura remediada, vi o sol. Vi Mike. Vi todas aquelas bundas nuas. Confesso que algumas era sexys, mas outras nojentas. Gostei da bunda de Mike. E nem sabia que era Mike. Como disse, gosto dos homens. Homens petulantes, homens presunçosos, homens com um “Q” de machista, homens que são fracos, e aqueles que precisam de mim. É! Gosto do Mike.

Beijos meus botões de rosa e jasmim, beijos meus cravos e gerânios.

KS 14/09/09

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uma das flores, Cap 3

As minhas lembranças se confundem nas épocas, então me perco entre as linhas de pensamento e já não consigo delinear uma razão para ter tentado encontrar a morte.

Durmia essa noite quando surgiu numa memória distante e adormecida, um episódio que nada teve a ver com o atentado a mim mesma, mas acho que seria interessante, caro leitor, você saber com que tipo de pessoas você cruza na sua vida...

A pobre menina que nada tinha de pobre recostou a cabeça no colo do bondoso homem, que a tanto fez rir. Hoje, por algum ato insano e cruel do destino, aquele bondoso homem estava um tanto embriagado. Mas o carinho que a menina mantinha por ele continuava vivo. Um pouco de álcool nunca fez mal a ninguém...

O homem não era seu pai, mas esteve presente na sua vida tanto quanto um pai, ou um amigo mais velho próximo. Ele costumava arfar as lindas e compridas madeixas da menina, dizia que assim poderia recordar a filha que agora adormecia no esplêndido leito de morte.

Naquela noite específica, não me recordo quem estava na casa, mas estávamos eu e ele sozinhos na sala. Como sempre, ele arfou meus cabelos e sorriu para mim. Eu retornei o sorriso. Mas percebi que algo estava diferente. Havia algo de podre e ruim nele. Bem, achei que devia ser impressão boba de menina mais boba ainda. Quem dera. Ele cheirava a álcool, á vodka da mais vagabunda.

Parou de mexer nos meus cabelos, eu me assustei. Sua mão como que por mágica agora estava sobre minha perna, perto da região dos joelhos. Olhei, e não acreditei. Não queria aquela mão ali. Não! O coração da menina bateu angustiado nos segundos que a mão do velho se estendia pela pequena, mas não magra, perna. Com impulso levantei, já não estava em mim. Eu simplesmente tinha saído. Não queria estar ali. Sentei no sofá.

Sem olhar para mim, ele escorregou sua mão de novo pela minha coxa que era ainda de menina. Tremi de medo. Saí do sofá e sentei no chão. Pernas cruzadas no chão da sala. Não, não sentei encostada no sofá. Sentei bem distante, no meio da sala. Bem em frente á televisão. Tentei por algum segundo esquecer, sem chance. Quando dei por mim, ele estava de cócoras ao meu lado, e sua boca veio em minha direção e beijou minha testa, lambuzando-a de saliva alcoólica. Saltei cabisbaixa, engoli todo meu choro e prendi meu coração para que não saltasse. Saí o mais depressa que pude. Ele fixou seus olhos na TV, e ali ficou.

Andei pelo corredor da casa, o caminho mais demorado. Ao menos parecia. Entrei no banheiro e fechei a porta. Não sabia se chorava ou se sentia nojo, ou se odiava aquele homem que fora tão doce pra minha infância até ali. Com raiva e rancor, peguei o sabonete e esfreguei na mão fazendo espuma, lavei a testa e todo o rosto, com medo de que ali tivesse ficado algum resquício daquele velho nojento. Lavei uma, duas ou três vezes. Sequei o rosto e recostei minhas costas na parede fria do banheiro. Queria chorar, mas não sabia se tinha algum motivo específico. Não sabia o que significava aquele acontecimento. Mas sabia que não contaria a ninguém, e sabia que tinha sido errado e mal.

Nunca mais gostei do velho maldoso. Bem, algum tempo depois ele foi embora pra nunca mais.

Eu tinha 8 anos.

KS 08/09/09

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Uma das Flores, Cap 2

A tristeza é um fato. A depressão é uma arte, e a vida é pra quem tem sorte. Entrei em crise familiar aos 16 anos. Não, meus pais não se separaram, mas minha relação com eles foi de mal a pior, e pior, e pior, e pior a cada dia que terminava. Não era culpa minha, não era culpa deles, culpar quem então? Aliás, pra que culpar? Ah, meu querido, sempre que algo da errado , mesmo que inconscientes tentamos procurar um culpado... não aceitamos que as coisas acontecem por fatores externos e incompreensíveis a seres tão pouco instruídos e tapados. Me refiro a vocês, leitor, humano.

O fato é o fato, as coisas que não poderiam ficar pior, ficaram. Agora além de ignorada, eu simplesmente parecia não existir pra ninguém. Me afastei dos amigos, não agüentaria mais muito tempo conversas longas e duradouras sobre roupas e afins, nem sobre qualquer outro assunto. Então, para não prejudicar pessoas que eu supostamente deveria gostar, me afastei. Com isso, afastei-me das festas, dos cinemas, das pizzadas, das bebedeiras típicas da adolescência rebelde, que pra mim não fazia sentido agora. Eu estava tão dentro de mim, que criei uma espécie de barreira de proteção. Afastava aqueles que se aproximavam, e acaba com o dia daqueles que teimavam em ficar ao meu lado. Cansei de ouvir coisas como “Você está estranha”, “Você está bem?”, “Você não é mais a mesma”. Dá pra parar de me torrar o saco e me deixar sozinha?!?! Cinco minutos, é tudo que peço. Mas eles pareciam não ouvir, ou não entender, ou simplesmente faziam questão de não entender e continuar ali, torrando.

Foi nessa atmosfera de dor, de claustrofobia de vida, de desejo de morte, e raiva profunda de mim mesma e do mundo que tentei suicídio, secretamente.

Eu pensei em vários jeitos de encontrar a morte, passei algumas semanas com planos infinitos e completamente insanos. E acabei querendo morrer da maneira mais idiota. Atropelada. Atravessei uma avenida movimentada. O idiota do motorista de caminhão resolveu parar e me xingar. Maldito! Eu só queria que ele não tivesse visto aquela garota desesperada e doente na frente dele. Resultado, primeira tentativa: FAILED!

Ah, mas eu não desistiria tão cedo. Pensei em tiro, mas não tinha arma. Pensei em cordas, mas não tinha onde pendura-las. Pensei em doenças, mas me dava angústia por pensar em ficar e doente e sofrer numa cama de hospital. Sofrer mais?:Oras, já estou sofrendo aqui. Quero é me libertar. Foi então que resolvi tomar veneno de ratos. Já tinha ouvido histórias sobre pessoas intoxicadas com aquilo. Mas eu não, eu ia eras morrer. Eu queria tomar aqueles venenos azuis, os rosas não fazem efeito algum além de intoxicar. Eu queria tomar o pacote inteiro. Bastava comprar... Segunda tentativa: FAILED! Eu tinha tomado só cinco cápsulas quando meu pai chegou em casa e me viu com elas na mão e um copo d’água. Nesse instante eu desmaiei. Acordei num hospital dois dias depois. Isso me frustrou. E o que viria depois, me frustraria mais. Meus pais pegaram o pouco dinheiro de suas economias e me internaram num hospital psiquiátrico. Relutei, mas como lá eles me davam tranqüilizantes, me sentia leve como num parquinho na infância. Os maus pensamentos simplesmente não existiam. Lá eu conheci um astronauta, um médico cirurgião, um coveiro, um juiz, uma babá louca, e um esquizofrênico que dizia ser escritor mal intencionado. Nome? Mike Connor. Meu Mike.

Estou cansada por demais hoje, meu rim direito está levemente dolorido. A idade chega, e as dores e afins vem de brinde. Vou descansar. Até outro dia, caro leitor.