terça-feira, 1 de setembro de 2009

Uma das Flores, Cap 2

A tristeza é um fato. A depressão é uma arte, e a vida é pra quem tem sorte. Entrei em crise familiar aos 16 anos. Não, meus pais não se separaram, mas minha relação com eles foi de mal a pior, e pior, e pior, e pior a cada dia que terminava. Não era culpa minha, não era culpa deles, culpar quem então? Aliás, pra que culpar? Ah, meu querido, sempre que algo da errado , mesmo que inconscientes tentamos procurar um culpado... não aceitamos que as coisas acontecem por fatores externos e incompreensíveis a seres tão pouco instruídos e tapados. Me refiro a vocês, leitor, humano.

O fato é o fato, as coisas que não poderiam ficar pior, ficaram. Agora além de ignorada, eu simplesmente parecia não existir pra ninguém. Me afastei dos amigos, não agüentaria mais muito tempo conversas longas e duradouras sobre roupas e afins, nem sobre qualquer outro assunto. Então, para não prejudicar pessoas que eu supostamente deveria gostar, me afastei. Com isso, afastei-me das festas, dos cinemas, das pizzadas, das bebedeiras típicas da adolescência rebelde, que pra mim não fazia sentido agora. Eu estava tão dentro de mim, que criei uma espécie de barreira de proteção. Afastava aqueles que se aproximavam, e acaba com o dia daqueles que teimavam em ficar ao meu lado. Cansei de ouvir coisas como “Você está estranha”, “Você está bem?”, “Você não é mais a mesma”. Dá pra parar de me torrar o saco e me deixar sozinha?!?! Cinco minutos, é tudo que peço. Mas eles pareciam não ouvir, ou não entender, ou simplesmente faziam questão de não entender e continuar ali, torrando.

Foi nessa atmosfera de dor, de claustrofobia de vida, de desejo de morte, e raiva profunda de mim mesma e do mundo que tentei suicídio, secretamente.

Eu pensei em vários jeitos de encontrar a morte, passei algumas semanas com planos infinitos e completamente insanos. E acabei querendo morrer da maneira mais idiota. Atropelada. Atravessei uma avenida movimentada. O idiota do motorista de caminhão resolveu parar e me xingar. Maldito! Eu só queria que ele não tivesse visto aquela garota desesperada e doente na frente dele. Resultado, primeira tentativa: FAILED!

Ah, mas eu não desistiria tão cedo. Pensei em tiro, mas não tinha arma. Pensei em cordas, mas não tinha onde pendura-las. Pensei em doenças, mas me dava angústia por pensar em ficar e doente e sofrer numa cama de hospital. Sofrer mais?:Oras, já estou sofrendo aqui. Quero é me libertar. Foi então que resolvi tomar veneno de ratos. Já tinha ouvido histórias sobre pessoas intoxicadas com aquilo. Mas eu não, eu ia eras morrer. Eu queria tomar aqueles venenos azuis, os rosas não fazem efeito algum além de intoxicar. Eu queria tomar o pacote inteiro. Bastava comprar... Segunda tentativa: FAILED! Eu tinha tomado só cinco cápsulas quando meu pai chegou em casa e me viu com elas na mão e um copo d’água. Nesse instante eu desmaiei. Acordei num hospital dois dias depois. Isso me frustrou. E o que viria depois, me frustraria mais. Meus pais pegaram o pouco dinheiro de suas economias e me internaram num hospital psiquiátrico. Relutei, mas como lá eles me davam tranqüilizantes, me sentia leve como num parquinho na infância. Os maus pensamentos simplesmente não existiam. Lá eu conheci um astronauta, um médico cirurgião, um coveiro, um juiz, uma babá louca, e um esquizofrênico que dizia ser escritor mal intencionado. Nome? Mike Connor. Meu Mike.

Estou cansada por demais hoje, meu rim direito está levemente dolorido. A idade chega, e as dores e afins vem de brinde. Vou descansar. Até outro dia, caro leitor.

Nenhum comentário: