terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uma das flores, Cap 3

As minhas lembranças se confundem nas épocas, então me perco entre as linhas de pensamento e já não consigo delinear uma razão para ter tentado encontrar a morte.

Durmia essa noite quando surgiu numa memória distante e adormecida, um episódio que nada teve a ver com o atentado a mim mesma, mas acho que seria interessante, caro leitor, você saber com que tipo de pessoas você cruza na sua vida...

A pobre menina que nada tinha de pobre recostou a cabeça no colo do bondoso homem, que a tanto fez rir. Hoje, por algum ato insano e cruel do destino, aquele bondoso homem estava um tanto embriagado. Mas o carinho que a menina mantinha por ele continuava vivo. Um pouco de álcool nunca fez mal a ninguém...

O homem não era seu pai, mas esteve presente na sua vida tanto quanto um pai, ou um amigo mais velho próximo. Ele costumava arfar as lindas e compridas madeixas da menina, dizia que assim poderia recordar a filha que agora adormecia no esplêndido leito de morte.

Naquela noite específica, não me recordo quem estava na casa, mas estávamos eu e ele sozinhos na sala. Como sempre, ele arfou meus cabelos e sorriu para mim. Eu retornei o sorriso. Mas percebi que algo estava diferente. Havia algo de podre e ruim nele. Bem, achei que devia ser impressão boba de menina mais boba ainda. Quem dera. Ele cheirava a álcool, á vodka da mais vagabunda.

Parou de mexer nos meus cabelos, eu me assustei. Sua mão como que por mágica agora estava sobre minha perna, perto da região dos joelhos. Olhei, e não acreditei. Não queria aquela mão ali. Não! O coração da menina bateu angustiado nos segundos que a mão do velho se estendia pela pequena, mas não magra, perna. Com impulso levantei, já não estava em mim. Eu simplesmente tinha saído. Não queria estar ali. Sentei no sofá.

Sem olhar para mim, ele escorregou sua mão de novo pela minha coxa que era ainda de menina. Tremi de medo. Saí do sofá e sentei no chão. Pernas cruzadas no chão da sala. Não, não sentei encostada no sofá. Sentei bem distante, no meio da sala. Bem em frente á televisão. Tentei por algum segundo esquecer, sem chance. Quando dei por mim, ele estava de cócoras ao meu lado, e sua boca veio em minha direção e beijou minha testa, lambuzando-a de saliva alcoólica. Saltei cabisbaixa, engoli todo meu choro e prendi meu coração para que não saltasse. Saí o mais depressa que pude. Ele fixou seus olhos na TV, e ali ficou.

Andei pelo corredor da casa, o caminho mais demorado. Ao menos parecia. Entrei no banheiro e fechei a porta. Não sabia se chorava ou se sentia nojo, ou se odiava aquele homem que fora tão doce pra minha infância até ali. Com raiva e rancor, peguei o sabonete e esfreguei na mão fazendo espuma, lavei a testa e todo o rosto, com medo de que ali tivesse ficado algum resquício daquele velho nojento. Lavei uma, duas ou três vezes. Sequei o rosto e recostei minhas costas na parede fria do banheiro. Queria chorar, mas não sabia se tinha algum motivo específico. Não sabia o que significava aquele acontecimento. Mas sabia que não contaria a ninguém, e sabia que tinha sido errado e mal.

Nunca mais gostei do velho maldoso. Bem, algum tempo depois ele foi embora pra nunca mais.

Eu tinha 8 anos.

KS 08/09/09

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