terça-feira, 15 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 6

Julguei ser imaginação. Mas o barulho me perseguia diariamente. Depois que voltei a ver o sol, passei também a ouvir barulhos de ondas. Água que sobe devido a lua, e se espatifa nela mesma, provocando espumas e causando dor a quem está embaixo, ou prazer a quem está no meio. Será que sou uma onda? Ah, bem que eu poderia ser. Vem e vai numa leveza sobre-humana, sobrenatural. Mas juro que para minha imaginação, o barulho se tornara muito mais real. Real demais. Devia ser efeito dos remédios. Naquela tarde, um dos soldados de branco trouxe um aparelho, que pelo que me recordo é um aparelho de som. Colocou o CD, e deixou ligado no modo “REPEAT” o resto da tarde. Foi bacana. Gosto de sons diferentes, para variar. Sentia-me mais forte depois de um almoço revigorante de sopa com sopa e gelatina de sobremesa. Mas a gelatina é gostosa. Não posso reclamar. Já da sopa, nem quero comentar.

Resolvi! Quero dançar. Desci da minha cadeira com rodas, que me acompanhou nos últimos dias. Minhas pernas bambearam, mas eu fui mais forte que elas. Afinal, quem comanda ainda sou eu. Pelo menos se não da minha via, das minhas pernas ainda sou dona. Tola. Caí. Confiança demais. Segunda chance: um soldado de branco me ajudou, e assim levantei e dei dois passos. Logo ele se afastou. Senti um ventinho na bunda, que afinal estava levemente descoberta. Foi desconfortável, mas ninguém ali jamais repararia. Dei de ombros, e segui. Segui ao ritmo da música, girei e sorri como se tivesse em algum parque, em algum lugar distante dali. Como se eu fosse criança, e o mundo me pertencesse. Ao menos naquele segundo.

O barulho de ondas, o cheiro de areia e a maresia não podiam ser só minha imaginação. O que haveria além dos muros? Aonde eu estava afinal? Comecei a pensar. Quem sabe agora meu neurônios respondessem mais, e as sinapses tivessem ficado mais fortes. È. Quem sabe.

Queria ir além daquele muro branco, e eu queria conseguir. Ou no mínimo tentar ver através dele. Não, não tenho visão Raio-X, mas tenho pernas e braços. E tenho a inteligência que ninguém aqui nesse lugar tem. Ou já teriam visto o que eu queria ver.

Delicadamente desastrosa, agarrei o galho de uma macieira ainda em crescimento, mas forte o suficiente para me agüentar. Escalei por entre o concreto do muro e as cascas da árvore. Me agarrei na trepadeira que insistia em vir para o meu lado do muro. Trepadeira burra, lá fora é melhor. Segurei nela e vi.

Vi a decepção enrubescer o meu rosto de raiva. Não tinham ondas. Tinham árvores e mata além da mata. Notei a areia no chão e a vegetação rasteira sob as copas das árvores, mas não fiz nenhuma associação. A decepção foi tamanha, que meus lábios tremeram de leve e meu semblante empalideceu. Acabei caindo do muro. Caí nos braços de um anjo.

15/09/09 KS

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