quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 7

-- Você acha que pode voar ou algo assim? – perguntou-me o dono daqueles olhos azuis que eu poderia jurar que foram roubados do azul do céu de inverno. Sua cara interrogativa era bizarra, mas não menos bonita.

Atordoada, não o respondi. Me entreti com os fiapos de sua barba mal-feita. Com os dentes alinhados e perfeitos, com os olhos arregalados e assustados, mas tampouco inocentes ou inseguros. Seu perfume também me envolveu. Não era uma colônia francesa ou algo do tipo, era sua pele. Exalava um cheiro de travesseiro recém lavado e sabonete. E um cheiro a mais, que não sei explicar daonde veio.

Estava boquiaberta. O que será que ele estaria pensando? Estava me olhando de um jeito curioso, como se eu fosse alguma espécie nova de macaco, ou sei lá. Ele me soltou no chão. Seus olhos azuis continuaram a me hipnotizar. Por isso não reparei em seus cabelos pretos, lisos e desordenados, na sua pele branquinha como gelo, nos seus óculos redondinhos, no estilo daquele bruxo: Harry Potter, e nem nas orelhas redondinhas, nem no pescoço largo e definido, muito menos na sua boca de lábios finos e sorriso desenhado. E tampouco na sua roupa de bunda de fora.

Ele não parecia nenhum dos pacientes que eu havia conhecido até agora. O que estaria fazendo ali? Não praticava minha fala há muito, então não consegui organizar frases para responder a simples pergunta dele.

Após passar 5 segundos do transe hipnótico, voltei o olhar á grama verde e bem cuidada embaixo dos meus pés. Lembrei do barulho, que eu continuava a escutar, e lembrei que devia ser coisa da imaginação, pois havia ali árvores, e não água.

O homem se afastou de mim. Foi então que percebi. Ele aparentava uns 30 anos com os óculos. Tinha um corpo razoavelmente normal. Nem gordo nem magro. Mas era dono de um porte muito elegante. Olhou de volta para o meio do jardim, onde agora se encontravam alguns pacientes em volta do aparelho de som e outros mexendo com suas próprias coisas. Ele voltou os olhos a mim. Ergueu a sobrancelha, abriu a boca. Mas não falou. Sorriu cordialmente. E virou as costas em direção ao jardim, após exalar fundo o ar de seu pulmão. Foi, deixando sua bunda a mostra.

Uma bunda que eu já tinha visto, e tinha achado bonita, nesse lugar onde não se tem muita coisa a escolher. Agora, podendo observa-la mais de perto, e associando a bunda ao rosto. Conclui: ele era realmente encantador. Pena que fugiu de mim.

Já tinha me conformado que tinha perdido uma bela chance de iniciação de um diálogo, quando ele virou-se a uns metros de distância e com ar de indagação de novo, e falou como quem fala ao vento:

- O que você procura fica do outro lado do jardim.

Agora sim, virou-se e sumiu entre os arbustos do jardim.

Meus pensamentos não eram concretos. Fugiam antes de eu poder completá-los. Quem era esse anjo que me protegeu da queda? Como ele sabia o que eu procurava? Como ele se acha no direito de me virar as costas? Por que não o vi antes? Quem ele pensa que é com aqueles óculos, e com aquela postura? Ele acha certo ficar por aí mostrando aquele fenômeno chamado bunda? Ta, nesse ponto me arrependi. Afinal, eu também estava com a bunda de fora. E se ele como eu também repara nas bundas? Nunca mais andarei sossegada por esse lugar.

O jardim ao qual me referi ficava na parte de traz de uma casa enorme, onde funcionava a clínica. A casa tinha janelas de alumínio, tais como as persianas e os bancos do jardim. Mas estes eram pintados de branco, fazendo assim, um contraste com algumas flores que insistiam em nascer nos arbustos e nos canteiros. Do lado do muro onde eu estava, além de trepadeiras, tinham 5 macieiras nessa época do ano sem frutas, e umas árvores que julguei estarem ali só por uma questão paisagista. Mas não importa, eram de bom gosto.

Sentei-me então, em um dos bancos de costas para a mata que eu agora odiava. Continuei a ouvir as ondas. Vezes mais fortes, vezes mais fracas. Lembrei da frase do anjo: “O que você procura fica do outro lado do jardim”. O que ele queria dizer com isso? As ondas estariam lá? Ou ele estava querendo era me ver cair do muro de novo, sem me salvar dessa vez? Cansei de pensar. Me habituei ao comodismo. Seria difícil largar. E mesmo porque, chegara a hora do sol se por e a hora de eu engolir mais sopa com sopa...

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