quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Uma das flores. Cap 8

Velha como estou, quando me lembro do meu passado, dos dias depressivos, da internação na clínica psiquiátrica aos meus 17 anos, do rapaz de olhos azuis, sinto um aperto no peito e um nó na garganta. É como se me enforcassem com uma rede de lembranças e me afogassem na minha própria saudade.

Acordei cansada de estar ali, só por estar. O soldado de branco me avisou que eu ia ter visita de um psiquiatra hoje. Tudo bem, né. Nem escolha tenho. Assim pelo menos, tenho a chance de ver caras novas nesse lugar intediante. O enfermeiro veio me acordar e me fez engolir 2 comprimidos. Hoje não teve injeção. Engraçado, mas não reclamei, nem por um segundo. Tomei meu banho, e vesti de novo a roupa da bunda de fora. Hoje, por medo de alguém normal ver minha bunda, amarrei de modo mais preso a camisola. Assim, não parecia quase nada. Como não tenho espelho ou olhos nas costas, ou braços esticáveis para trás, primeiro amarrei as cordinhas, e só depois vesti a camisola pela cabeça. Ótimo. Estou desenvolvendo técnicas não suicidas.

Vi a porta se mexer, tinha acabado de pentear meus cabelos, depois de muito tempo. Prendi-os com algo qualquer que achei na pia do banheiro. Ah, não contei. Meu quarto branco e sem graça, tinha um banheiro próprio, o que julgo ser normal em clínicas, mas achei interessante ressaltar. Enfim, espiei para fora do banheiro e lá estava um homem velho, com bigodes brancos e rosto cansado. Mas seu semblante era convidativo. De fato, fui com a cara dele.

- Vejo que penteou os cabelos hoje. – falou o velho ao vento, enquanto olhava sua prancheta com uma folha que devia ser minha ficha. – como se sente?

- Bem. – fui curta e direta. Meu rosto estava apático, mas creio que minha aparência melhorara de uns dias pra cá. De certa forma as sopas são bons hidratantes. Ou não. Vai saber. Não entendo de biologia ou qualquer coisa sobre substâncias e reações.

- Já fez contato com algum interno? – ele insistiu para que eu falasse. Mas ainda era difícil a formulação de frases.

- Não. – curta e grossa de novo. Esse velho parecia legal, mas não sabia cativar minha conversa.

- Tem tomado os remédios? – disse ele dessa vez dando um meio sorriso e olhando para meu rosto.

- Sim. – o que ele esperava? Empurravam essas merdas goela abaixo? Como eu teria escolha de não tomar?

- Por favor, sente aqui. – fez apontando a cama com a caneta esfereográfica, azul, Bic da sua mão direita. Ele era destro. Odeio destros. São normais demais. Odeio ter nascido destra. Achei mais uma razão para me matar: não ser canhota.

Sentei, sabia que ele faria algum tipo de avaliação médica. Abriu minha garganta, tocou as amídalas. Apalpou a barriga. Ouviu meus batimentos, minha respiração. Concluiu com um sorriso, o que me fez suspeitar de que eu estava bem de saúde. Pelo menos da saúde física.

- Você precisa de alguma coisa a mais, queridinha? – o que? Ele me chamou de queridinha? Que médico louco. Preciso mencionar que ele indagou isso com um sorriso Colgate? Pensei em nem repsonder. Mas de fato, senti falta de algo.

- O senhor pode me providenciar papel e caneta? Sinto falta de escrever. – Balbuciei isso de cabeça baixa e mirando qualquer lugar que não fosse os olhos dele.

- Vai tentar enfiar a caneta na garganta? – perguntou ele ironicamente.

- Não, não. Apenas... – suspirei- apenas sinto falta de escrever.

- Ah! Outro Mike Connor, fêmea. – falou ele com sorriso sarcástico, de modo meio baixo, mas meus ouvidos puderam escutar. Conitnuou - Providencio isso. Mas fique sabendo que papel e caneta são privilégio de poucos aqui. Cuide bem o que vai fazer senhorita. – Disse isso, virou as costas e bateu a porta de leve.

Pronto. Eu ia poder voltar a escrever. Será que minha mãos ainda me obedeceriam? Será que as rimas ainda teriam vida na minha mente? Será que eu conseguiria escrever algo? E... Quem é Mike Connor?

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