domingo, 25 de outubro de 2009

Sem nome.


Não sei ao certo a data, não sei ao certo quando ou porque. Sei apenas que aconteceu, num lugar pouco distante daqui. Ele saiu do portão da casa dela, com agonia e repúdio por ele mesmo no peito. Deixou-a em meio a lágrimas, sentada no vão da porta. Não conseguiu olhar para trás. Talvez por medo de querer voltar, ou talvez por simplesmente querer sair dali, daquela realidade.

Andou 50 metros além do muro da casa dela. Parou, não podia mais conter o vômito de algo que estava nele, lágrimas se debulharam por entre seus olhos, encharcando sua bochecha magra e seu pescoço receoso. Chorou, parado ali. Era uma noite perigosa. Apesar de estrelada e com um luar perfeito, a noite estava misteriosa. Chorando, ficou estatelado em seu próprio mundo, perdendo o sentido de realidade ou sonho. Perdendo o sentido do que estava havendo. Quando deu conta de si, estava no meio da rua dela, ouviu barulho de tiros. De um lado a polícia, do outro uma quadrilha fortemente armada. Seguiu-se então uma sucessão de 19 tiros. O vigésimo seria aquele que acertaria ele. Ela correu para o portão com o rosto ainda molhado, pois se assustou com o barulho. Chegou a tempo de vê-lo levando o vigésimo tiro. Suas sobrancelhas curvaram-se, seu coração sentiu um aperto. Ele levara o tiro. Ela não podia acreditar.

A quadrilha fugiu enquanto a polícia o socorria. Ela saiu desesperada portão afora. Ele já não respondia. Havia levado um tiro pouco abaixo do ombro, bem ao lado esquerdo. Ela corria, mas seus músculos pareciam não responder. Os segundos levados para chegar até o corpo dele foram os mais longos de sua vida.

Ajoelhou-se ao lado do corpo ensangüentado.
- Não, por favor. Não faz isso comigo. – lágrimas não paravam de sair de seus olhos.

Logo chegou a ambulância e em seguida repórteres e todo tipo de gente que gosta de ver a desgraça e sair fofocando. Ela ficou em estado de choque por 2horas. Não falava, não respondia o que lhe perguntavam. Nem sequer olhava para um ponto fixo. Seu olhar estava realmente perdido. Não tinha mais sentido. Não tinha sentido continuar ali.

Ele sobreviveu. Foi para o hospital. Ficou em coma, durante quatro meses. E durante esse tempo ela o visitava todos os dias, incansavelmente. Conversava e fazia carinho naquele corpo que não respondia ou sequer se mexia. Acariciava aqueles cabelos, aquele pescoço, aquelas bochechas magras, e de vez em quando se arriscava a passar os dedos nos lábios agora secos e sem vida..

Após quatro meses, ela chegou ao hospital um pouco mais tarde do que de costume. Ao se aproximar do quarto, ainda no corredor, observou uma quantidade incomum de pessoas. Deviam ter umas 15. Seu coração amoleceu, não tinha mais chão nos pés. De repente saiu um moço alto e loiro.

- Ele acordou. – exclamou ele.

Ela não disse uma palavra sequer. Apenas sorriu, sorriu como a muito não sorria. Sorriu com os olhos, com os lábios, sorriu com o coração.

Ela o devolvera a vida, e agora já cumprira sua missão. Virou e foi embora pela porta de vidro principal. Ela o amava, incondicionalmente. Amava aquele homem. Aquele que a fazia rir muito e chorar o mesmo tanto. Que a fazia sofrer. Mas a fazia tão mulher, que nenhum sofrimento era o bastante para separa-los. Até aquela noite, na qual ele havia confessado sua traição.

Ela se foi, não sem antes deixar sua prova de amor.

11/05/09

(KS)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Uma das flores, Cap 10



Percebi meu erro. A folha era dele. O mesmo Mike Connor que o médico havia falado, o mesmo rapaz de bunda adorável, o mesmo herói convencido, o mesmo dono dos olhos mais encantadores e sorriso mais estonteante. Era ele. Ali, na minha frente.

Estupefata como eu estava, pensamentos tão absortos que me desprendi do mundo real e viajei no profundo de minha imaginação. O que ele pensaria de mim? Ah, perfeito. Não sabia o que falar. Fiquei muda.

- Já te conhecia – saiu um grunhido de palavras de repente de minha boca. – de nome, quero dizer. - Corrigi num instante.

- Será que estou tão famoso por essas bandas? Ou já era fã antes de chegar aqui? – falou meio arrogante.

- Do que está falando? Quem me disse seu nome foi o médico velho. Disse quando eu lhe pedi folhas e lápis. – disse eu com desprezo e uma pontinha de irritação pela falsa modéstia do meu parceiro de diálogo pela primeira vez dentro daquela clínica.

De fato eu conversara com médicos e enfermeiros, mas minhas frases se reduziam a sim e não, ou a no máximo três palavras. E mesmo assim com dificuldade. Agora, ali com aquele humano irritante, elas saíam com a mesma facilidade de uma expiração.

- Por que papel e lápis? Você desenha ou escreve? – perguntou ele ressabido.

- Penso alto o suficiente para as palavras se grudarem ao papel como num sopro de Superbonder. – percebi a idiotice sem graça que eu falei meio segundo depois. Engoli a seco e deixei passar a risada de deboche dele. Desvencilhei-me olhando para a grama cortada e para a carreira de formigas que passava por entre nós dois.

- Ah, claro. Escritora amadora. Tinha um nome para pessoas como você na minha turma de literatura: garota-idiota-que-acha-que-escreve-e-pensa-que-os-demais-gostam. – Sorriu afável como fel.

Fiquei sem ação. E para não sair vencida da disputa de palavras, terminei com um sorriso grande e falso no rosto pálido:

- Prazer foi todo seu. – respirei – Até mais.

Saí correndo quase voando. Cheguei ao meu quarto deitei na cama. Me veio uma onda de tristeza e amargura. Meu coração doeu como antes. E minhas lágrimas desabaram. Até hoje não entendi ao certo a mistura de sentimento. Mas creio que eu já havia entendido o quão importante aquele rapaz seria para mim... e mais que isso, entendi que odiava discutir, mesmo que por motivo torpe com ele.

Uma das flores. Cap 9

Perguntas sem respostas rodeiam minha cabeça e já posso vê-las escorrendo por minhas têmporas. Palavras escorrendo de todos os orifícios de minha face, como numa piscina de letras em que as palavras são os tubarões estrategicamente colocados para te afogar e te triturar. Já não havia ar para se respirar... Acordei. Estava um sol horroroso batendo bem no meu olho. Quem abriu a janela do quarto? Ah, enfermeira idiota. Odeio você.

Ontem, depois de receber meus materiais tão queridos, lápis e papel, acabei sem ter o que escrever. A necessidade é maior quando não se tem o que quer... Depois que se tem, é mais difícil precisar. Raça estranha essa humana.

Levantei cambaleante. Meu coração agoniado precisava despachar todo esse peso dos meus ombros... Como? Escrevendo.

Sentei ao sol, num banco branquinho no meio do jardim. O sol logo viraria sombra, pois havia ali uma árvore bonita e com imensas folhas bem clorofiladas. O céu tinha nuvens em pontos estratégicos que não encobriam o sol. Pois não ventava. Dei um leve sorriso, seria mais fácil controlar as folhas sem o vento.

Foi um momento único quando peguei o lápis e escrevi as primeiras palavras depois de meses. Senti a adrenalina invadir minh’alma, e de leve o gosto da maresia que eu sentira nos dias anteriores. Meu sorriso logo virou susto. Uma leve brisa bateu em meus cabelos como sopro, e empurrou consigo minhas folhas ainda em branco. Saí como uma idiota correndo para pegá-las. Foi bem idiota. Mas graças a Deus minha bunda não pareceu. Já havia aprendido a fazer os mesmos nós fortes todas as manhãs. Assim minha bela bunda estaria protegida de tarados exógenos loucos.

A brisa se tornou levemente mais forte. E as folhas voaram em direção oposta ao muro que eu tentara escalar dias atrás. Foram pra mesma direção que o rapaz metido a herói me apontara. Foi quando percebi novamente o cheiro de maresia. Realmente, daquele lado havia menos árvores. Peguei as folhas e fiquei andando como uma louca de um lado a outro do muro. Procurando por alguma fenda entre as árvores na qual eu pudesse espiar. Meio-dia. Nada. Resolvi ir tomar a sopa, e procurar mais tarde.

A sopa estava especialmente horrível aquele dia. Eu queria comida de verdade. Arroz, feijão carne moída bem temperada com uma salada de tomate e alface americana. Ai que saudades da comida da mamãe. Daria um braço por aquilo hoje. Mas não adiantaria. Nem sei se ela ainda se lembra de mim. Pouco importa, estou numa onda de testar a auto-suficiência. Quem sabe dará certo.

Depois do cochilo das 13h, voltei ao jardim, ainda vazio. E continuei minha caçada a maldita fenda.

Depois de duas indas e vindas percebi onde o cheiro se fazia mais forte devido a correntes de ar. Era ali. Eu ia subir.

E dessa vez um metido a herói não me atrapalharia. Idiota... Bunda bonita, mas mesmo assim cara idiota.

Subir em trepadeiras estava se tornando costumeiro. E perigoso. Mas pouco importa. Eu vi. Era o mar. Azul, imenso e com ondas intermináveis. Deu-me uma súbita vontade de pular aquela merda de muro e ir nadar. Mas não teria como. O lado de lá era extremamente alto. Merda tripla.

As folhas escritas e as outras brancas eu tinha deixado no quarto... mas de repente vi uma delas voando atrás de mim. Estranho. Não tem como voar da janela do meu quarto... desci com a sutileza de um elefante e comecei a correr atrás da minha folha branca, de uma das minhas chances de escrever... do meu destino, que se desenhava ali.

Alcancei a folha em branco com dificuldade. Ao pegá-la, o rapaz herói surgiu, juro não sei daonde, e a tirou de minhas mãos com um sorriso. O que ele pensa que é?!?! É MINHA folha.

- Obrigado por pega-la pra mim, achei que a tivesse perdido já. – disse ele com o sorriso de bambear as pernas e os olhos brilhando como céu de inverno.

Fiz cara de braba e arranquei a folha dele. ERA MINHA!

- Bem, se faz tanta questão de ficar com ela, é sua. Tenho outras mesmo. – continuou ele respondendo meu gesto mal-educado. Estendeu a mão e disse com muito pouca sensatez, julguei – Prazer, Mike Connor!