sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Uma das flores, Cap 10



Percebi meu erro. A folha era dele. O mesmo Mike Connor que o médico havia falado, o mesmo rapaz de bunda adorável, o mesmo herói convencido, o mesmo dono dos olhos mais encantadores e sorriso mais estonteante. Era ele. Ali, na minha frente.

Estupefata como eu estava, pensamentos tão absortos que me desprendi do mundo real e viajei no profundo de minha imaginação. O que ele pensaria de mim? Ah, perfeito. Não sabia o que falar. Fiquei muda.

- Já te conhecia – saiu um grunhido de palavras de repente de minha boca. – de nome, quero dizer. - Corrigi num instante.

- Será que estou tão famoso por essas bandas? Ou já era fã antes de chegar aqui? – falou meio arrogante.

- Do que está falando? Quem me disse seu nome foi o médico velho. Disse quando eu lhe pedi folhas e lápis. – disse eu com desprezo e uma pontinha de irritação pela falsa modéstia do meu parceiro de diálogo pela primeira vez dentro daquela clínica.

De fato eu conversara com médicos e enfermeiros, mas minhas frases se reduziam a sim e não, ou a no máximo três palavras. E mesmo assim com dificuldade. Agora, ali com aquele humano irritante, elas saíam com a mesma facilidade de uma expiração.

- Por que papel e lápis? Você desenha ou escreve? – perguntou ele ressabido.

- Penso alto o suficiente para as palavras se grudarem ao papel como num sopro de Superbonder. – percebi a idiotice sem graça que eu falei meio segundo depois. Engoli a seco e deixei passar a risada de deboche dele. Desvencilhei-me olhando para a grama cortada e para a carreira de formigas que passava por entre nós dois.

- Ah, claro. Escritora amadora. Tinha um nome para pessoas como você na minha turma de literatura: garota-idiota-que-acha-que-escreve-e-pensa-que-os-demais-gostam. – Sorriu afável como fel.

Fiquei sem ação. E para não sair vencida da disputa de palavras, terminei com um sorriso grande e falso no rosto pálido:

- Prazer foi todo seu. – respirei – Até mais.

Saí correndo quase voando. Cheguei ao meu quarto deitei na cama. Me veio uma onda de tristeza e amargura. Meu coração doeu como antes. E minhas lágrimas desabaram. Até hoje não entendi ao certo a mistura de sentimento. Mas creio que eu já havia entendido o quão importante aquele rapaz seria para mim... e mais que isso, entendi que odiava discutir, mesmo que por motivo torpe com ele.

Um comentário:

Tesão disse...

Ha, eu não achava que ele ia se sair tão metido assim!

Parabéns, isso vai virar um livro depois hein!