sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Uma das flores. Cap 9

Perguntas sem respostas rodeiam minha cabeça e já posso vê-las escorrendo por minhas têmporas. Palavras escorrendo de todos os orifícios de minha face, como numa piscina de letras em que as palavras são os tubarões estrategicamente colocados para te afogar e te triturar. Já não havia ar para se respirar... Acordei. Estava um sol horroroso batendo bem no meu olho. Quem abriu a janela do quarto? Ah, enfermeira idiota. Odeio você.

Ontem, depois de receber meus materiais tão queridos, lápis e papel, acabei sem ter o que escrever. A necessidade é maior quando não se tem o que quer... Depois que se tem, é mais difícil precisar. Raça estranha essa humana.

Levantei cambaleante. Meu coração agoniado precisava despachar todo esse peso dos meus ombros... Como? Escrevendo.

Sentei ao sol, num banco branquinho no meio do jardim. O sol logo viraria sombra, pois havia ali uma árvore bonita e com imensas folhas bem clorofiladas. O céu tinha nuvens em pontos estratégicos que não encobriam o sol. Pois não ventava. Dei um leve sorriso, seria mais fácil controlar as folhas sem o vento.

Foi um momento único quando peguei o lápis e escrevi as primeiras palavras depois de meses. Senti a adrenalina invadir minh’alma, e de leve o gosto da maresia que eu sentira nos dias anteriores. Meu sorriso logo virou susto. Uma leve brisa bateu em meus cabelos como sopro, e empurrou consigo minhas folhas ainda em branco. Saí como uma idiota correndo para pegá-las. Foi bem idiota. Mas graças a Deus minha bunda não pareceu. Já havia aprendido a fazer os mesmos nós fortes todas as manhãs. Assim minha bela bunda estaria protegida de tarados exógenos loucos.

A brisa se tornou levemente mais forte. E as folhas voaram em direção oposta ao muro que eu tentara escalar dias atrás. Foram pra mesma direção que o rapaz metido a herói me apontara. Foi quando percebi novamente o cheiro de maresia. Realmente, daquele lado havia menos árvores. Peguei as folhas e fiquei andando como uma louca de um lado a outro do muro. Procurando por alguma fenda entre as árvores na qual eu pudesse espiar. Meio-dia. Nada. Resolvi ir tomar a sopa, e procurar mais tarde.

A sopa estava especialmente horrível aquele dia. Eu queria comida de verdade. Arroz, feijão carne moída bem temperada com uma salada de tomate e alface americana. Ai que saudades da comida da mamãe. Daria um braço por aquilo hoje. Mas não adiantaria. Nem sei se ela ainda se lembra de mim. Pouco importa, estou numa onda de testar a auto-suficiência. Quem sabe dará certo.

Depois do cochilo das 13h, voltei ao jardim, ainda vazio. E continuei minha caçada a maldita fenda.

Depois de duas indas e vindas percebi onde o cheiro se fazia mais forte devido a correntes de ar. Era ali. Eu ia subir.

E dessa vez um metido a herói não me atrapalharia. Idiota... Bunda bonita, mas mesmo assim cara idiota.

Subir em trepadeiras estava se tornando costumeiro. E perigoso. Mas pouco importa. Eu vi. Era o mar. Azul, imenso e com ondas intermináveis. Deu-me uma súbita vontade de pular aquela merda de muro e ir nadar. Mas não teria como. O lado de lá era extremamente alto. Merda tripla.

As folhas escritas e as outras brancas eu tinha deixado no quarto... mas de repente vi uma delas voando atrás de mim. Estranho. Não tem como voar da janela do meu quarto... desci com a sutileza de um elefante e comecei a correr atrás da minha folha branca, de uma das minhas chances de escrever... do meu destino, que se desenhava ali.

Alcancei a folha em branco com dificuldade. Ao pegá-la, o rapaz herói surgiu, juro não sei daonde, e a tirou de minhas mãos com um sorriso. O que ele pensa que é?!?! É MINHA folha.

- Obrigado por pega-la pra mim, achei que a tivesse perdido já. – disse ele com o sorriso de bambear as pernas e os olhos brilhando como céu de inverno.

Fiz cara de braba e arranquei a folha dele. ERA MINHA!

- Bem, se faz tanta questão de ficar com ela, é sua. Tenho outras mesmo. – continuou ele respondendo meu gesto mal-educado. Estendeu a mão e disse com muito pouca sensatez, julguei – Prazer, Mike Connor!